Seccionistas do Futebol do CDA quebram silêncio

A notícia do abandono de três seccionistas da secção de futebol dos “Águias”, avançada pelo nosso jornal no início do mês de agosto, apanhou muita gente de surpresa mas estes ex-seccionistas e treinadores do Clube – Marco Ferreira, Michael Granadeiro e Ricardo Cinturão – explicam que tentaram, por várias vezes, encontrar outra solução.

Já passou algum tempo desde a vossa saída. Porque é que só agora quebraram o silêncio?

Michael Granadeiro (MG): Quisemos deixar as coisas correr para que, quem está agora à frente do futebol, pudesse, calmamente, iniciar as coisas de forma normal. Agora que a época já começou, achámos que era altura de falar e esclarecermos o que se passou, principalmente depois de vários pais nos terem vindo confrontar, porque ouviram dizer que nós saímos e deixámos a secção naquele estado, de um momento para o outro.

Marco Ferreira (MF): Andámos muito tempo a lutar e a procurar soluções necessárias que não existiam e também sentimos que que não havia muito interesse em melhorar as coisas.

Quando falam em ‘melhorar as coisas’, a que se referem propriamente?

MF: Em termos de infraestruturas eram precisos melhoramentos no estádio e nos balneários, e financeiramente precisávamos de apoio.

MG: Foi quase tudo suportado graças ao nosso esforço em arranjar patrocínios em Alpiarça, mas na grande maioria até fora do concelho, já que alguns pais com conhecimentos também nos conseguiram ajudar. Se não fossem os patrocinadores, era muito difícil ter as condições mínimas reunidas. Acho que fizemos bons investimentos lá [secção]: todos os miúdos tinham equipamentos novos, completámos equipamentos antigos e adquirimos material de treino e de jogo novo. Em dois anos fizemos tudo isso. Praticamente tudo foi adquirido com recurso a patrocínios porque a verba disponibilizada que a secção tinha era mínima, cerca de 2,60€ por mês a cada miúdo.

Que encargos mensais tem a secção?

MF: Despesas de hospital, que são imprevisíveis mas por vezes acontecem; bar, treinadores, a logística com a AF Santarém. Damos sandes e sumos aos atletas, mas isto é patrocinado só em parte porque a outra tem de ser suportada pela secção.

Tentaram chegar a algum entendimento com a direção do CDA?

MG: Na última reunião que tivemos com a direção dissemos que se as coisas continuassem assim, abandonávamos e ainda houve pessoas lá que conseguiram dizer que já não era mau recebermos esse valor, porque certas secções nem isso recebiam.

MF: Tentámos fazer um planeamento da próxima época, até mesmo com os pais e percebemos que havia uma certa dificuldade porque muitos deles não se identificavam com o que estava a ser feito. Quando nós queríamos preparar uma época e apareceram cinco ou seis pais [sendo que à data a secção tinha mais de cem atletas] ainda mais desmotivados ficámos. Juntando todos esses factores e uma disponibilidade reduzida, por motivos profissionais, com a falta de condições, foi a gota de água e decidimos sair. Logicamente que quando somos acusados de não avisar, isso é falso. Ainda o fizemos com alguma antecedência para que quem viesse a seguir, e pegasse na secção, tivesse alguma margem de manobra.

MG: E ainda conseguimos deixar praticamente tudo organizado para a época arrancar.

Relacionam estas situações com a saída de atletas que se mudam para outros clubes?

MG: Se os outros clubes os querem é porque eles são bons, e quem os ensinava tinha de ser igualmente bom. Mas porque é que eles querem sair do nosso clube? Porque se calhar nós não temos as condições que os outros apresentam. Mas não nos podemos equiparar a outras equipas que têm outras condições para eles trabalharem. Não se ligou importância a isto porque nós estivemos na última reunião e dissemos que, se assim continuasse, o futebol em Alpiarça ia acabar. Foi-nos dito que se acabasse, acabava. Foi nessa altura que dissemos que não continuávamos, e não houve mais uma palavra desde aí.

MF: Percebemos que a importância que nós dávamos à secção não era a mesma que outras pessoas davam.

Mas acham que o clube tinha capacidade financeira para responder aos vossos apelos?

MF: Tem de haver investimento em todos os aspectos. Se realmente querem evoluir e ter outras condições, tem de haver investimento.

MG: Nós não nos víamos num projeto do ‘andar cá por andar’. Ou era para melhorar ou não queríamos, e acho que a visão deles era somente a de manter os miúdos ocupados.

MF: Ter cento e tal miúdos a jogar todos os sábados e domingos e apenas três seccionistas a acompanhar, ainda que alguns pais ajudassem, leva a que as coisas, mais tarde ou mais cedo, acabem por quebrar.

MG: Isto é um desporto de competição e se as coisas são para ser levadas de forma leviana mais vale formar-se um ATL.

Prevêem um regresso ao futebol do CDA? 

MG: Não. Dissemos que saíamos, e a partir daí nunca mais houve uma palavra.

Não perderam todos os vínculos com o CDA: Marco deixou de ser seccionista mas continua vinculado como sócio, Michael pertence à recente secção de Trail/Running, Ricardo Cinturão continua como seccionista dos 4Adventure e, embora a sua saída do futebol tenha tido um gosto amargo, dizem não guardar rancores e desejam sucesso aos novos elementos desta secção, rematando que “uns vão e outros vêm, as coisas são mesmo assim”.