Entrevista a Fernanda Cardigo: O outro lado do COVID-19 – as famílias em dificuldade financeira

No Dia Internacional da Família, o Alpiarcence entrevista a Presidente da Junta de Freguesia de Alpiarça sobre a situação económica das famílias nesta fase pandémica.

Confrontados com uma pandemia sanitária, os portugueses viram-se obrigados a um confinamento que, embora lhes resolvesse um problema de saúde, lhes trouxe outra crise: a económica.

Com a taxa de desemprego nos 6,7% no início de maio, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística, as famílias ficaram a braços com um redução substancial (ou mesmo perda total) dos seus rendimentos devido às situações de despedimento ou de lay off, consequências das medidas de decorrentes do Estado de Emergência. Com o desconfinamento, o país começa a despertar para a vida económica. Um panorama que não é menos desolador: apesar da injeção de liquidez do Estado na Economia proveniente de medidas como as linhas de crédito e as moratórias que chegará aos 11,8% do PIB, as famílias portuguesas não vão ter tempos fáceis. Muitas empresas não vão abrir e o turismo, que enriquecia os cofres do estado, vai levar muito tempo a recuperar. E com portugueses sem trabalho, os impostos, uma das maiores fontes de receita do Estado, vão ter menos expressão no final das contas. O que resta? Centeno o dirá uma vez que estas medidas, apresentadas na semana passada, são extraordinárias, temporárias, funcionando apenas como um balão de oxigénio. 

E o dia-a-dia dos portugueses? Como é que os alpiarcenses estão a enfrentar estas dificuldades?

Fernanda Cardigo fala sobre carências em tempo de COVID e fora dele.

A par da crise de saúde pública que o país atravessa, os portugueses sentem também os efeitos económicos da pandemia. Em Alpiarça, também há famílias em risco económico? Quantas famílias tem a Junta de Freguesia sinalizadas e a quantas presta apoio?

Infelizmente Alpiarça não é uma ilha, havendo muitas famílias revelando vários tipos de carência que se acentuam em momentos de crise económica como a que começamos agora a assistir. Nos meus mandatos é a segunda vez que levamos com este embate. A primeira tinha sido aquando da intervenção direta da troika em Portugal. 

As famílias que a Junta apoia ou já estão sinalizadas pela Rede Social concelhia ou sendo o primeiro contacto junto desta autarquia têm o processo desenvolvido em cooperação com aquela estrutura. Desde o início deste mandato o número de famílias apoiadas já ultrapassou uma centena.

Que tipo de apoio é o mais solicitado? Alimentar? Pagamento de contas?

A maior parte dos pedidos de apoio refere-se a pagamentos de contas de eletricidade e de água, mais do que os alimentares, uma vez que este último está normalmente assegurado por outras instituições da Rede. 

Na área da saúde também os pedidos não são despicientes, que vão desde o apoio a viagens para consultas em hospitais centrais até à compra de medicamentos ou de óculos, por exemplo. É um tipo de apoio conjuntural, mas que percebemos que, em muitos casos, devido a famílias destruturadas ou a desemprego de longa duração, correspondem a necessidades continuadas. Aí há limites da nossa parte, não só devido às nossas limitações financeiras como ao regulamento de apoios que foi por nós apresentado à Assembleia de Freguesia e aí aprovado por unanimidade.

Depois há as intervenções a nível das condições de habitabilidade onde temos conseguido, algo que muito nos orgulha e que já é uma marca da nossa governação autárquica, e em colaboração com a Câmara de Alpiarça, fazer desaparecer da nossa freguesia situações indignas do século XXI.

Neste e no anterior mandato estamos a atingir as duas dezenas de intervenções em habitações, tanto na vila como nos lugares da Gouxaria, do Frade de Cima e do Frade de Baixo, tendo as duas últimas obras, concluídas no corrente ano, as que foram de maior vulto.

Estas famílias que agora pedem apoio, estão incluídas no grupo económico de baixo rendimento ou a classe média já está a ser afetada por esta redução dos rendimentos?

As famílias que têm tido o nosso apoio são praticamente todas de baixos rendimentos. Mas é importante realçar que famílias que agora nos batem à porta, antes, com baixos rendimentos, nunca tinham pedido qualquer apoio. Fazem-no agora porque um elemento do agregado (ou até mais) fica desempregado e aí o tal equilíbrio, frágil, é certo, que conseguiam manter, deixa de se verificar.

Estamos a falar de famílias que estão sinalizadas pela rede de apoio social ou que pedem diretamente apoio. Tem conhecimento de casos, diremos a chamada “carência envergonhada”, de famílias que estando em dificuldades se inibem em pedir ajuda?

É verdade que muitos dos apoios que temos dado provêm, como bem refere, desse tipo de sinalização. Mas mesmo aí, dos tais estratos mais carenciados, há «carências envergonhadas» e que, em situações extremas, resolvem pedir ajuda. 

Em abril passado, já em estado de emergência, vi esse sentimento nos olhos de uma mãe que recebeu ajuda alimentar pela primeira vez, por ter ficado desempregada

Lembro-me também de um caso, no mandato anterior, de uma senhora, a viver num andar e com netos a cargo, que nos veio pedir ajuda porque lhe iam cortar a luz, não tinha dinheiro para comprar mais gás e estava-se a passar por uma enorme vaga de frio. Era o bem-estar e de saúde de todos, particularmente das crianças, que estavam em causa.

Ou outro caso, entre tantos, de um freguês que, depois de muitos meses à espera de uma consulta no hospital de São José, chegar ao dia e não ter dinheiro para se deslocar a Lisboa.

São tipos de ajuda que só podem chegar em tempo útil perante respostas de governação de proximidade e com a agilização de processos. Outras instituições da administração central ou regional, como a Segurança Social, também presentes no terreno, devido à sua ação assentar em processos com maior burocracia e, daí com tempos mais demorados de resposta, não conseguem resolver estes problemas de forma tão imediata.

Como consegue a Junta chegar a estas pessoas? Que tipo de apoio pedem?

Parte significativa provém de sinalizações da Rede Social do concelho de Alpiarça. Há também os pedidos diretos, mas nestes casos e como também já foi referido, coordenamos sempre com a Rede, não só para otimização de recursos mas também para despistar eventuais oportunismos ou duplicação de apoios.

Depois, há os que nós próprios vamos conhecendo, quer através dos autarcas, quer ainda de funcionários, ou que fregueses nos fazem chegar diretamente.

Ainda no passado mês de abril, no âmbito do apoio social, envolvemo-nos numa cooperação com o Agrupamento de Escolas José Relvas, uma vez que, por via do ensino à distância, tinham sido referenciadas famílias com carências graves a nível de mobiliário. Já fizemos chegar mobílias a famílias e algumas secretárias a alunos para, assim, terem melhores condições de estudo.

A recolha de móveis usados os quais, quando necessário, antes de serem distribuídos, são restaurados, faz parte da implementação dos valores da chamada «Economia Circular». 

Como Presidente da Junta e estando no terreno, quais as maiores dificuldades e angústias que sente na prestação deste apoio? O que deveria ser feito, quer pelo governo central ou pela sociedade civil para conseguir chegar a estas famílias e resolver uma situação que é, correndo alguns riscos ao dizê-lo, “pontual?

Estamos profundamente conscientes que a maior parte destes apoios, como já referi, são soluções temporárias porque as causas profundas vão lá continuar. E não são as Juntas de Freguesia que as irão conseguir resolver.

Já o mesmo não se passa com as intervenções em habitações, cujos efeitos irão fazer a diferença na vida das pessoas, irão perdurar nas suas vidas.

São as políticas dos governos que poderão fazer a diferença. No primeiro mandato, quando as políticas implementadas pela Troika em Portugal se faziam sentir bem, deparámo-nos com situações que não imaginávamos poderem ainda ocorrer. 

Imagine o que é estarmos perante situações em que a Junta estava a conceder um apoio sabendo, de antemão, que no mês a seguir tudo estaria igual ou pior. Uma enorme frustração e, ao mesmo tempo, de revolta.

Com um orçamento anual como o nosso, que ronda os 250 mil euros, para todas as despesas de funcionamento, investimento, apoio social, apoio ao movimento associativo, etc., é muito difícil chegar a todos. Perante tal valor temos que ser bastante criativos. Por isso, sempre que possível, tentamos criar parcerias, abrir as portas a colaborações várias. Em 2019 aderimos a uma iniciativa nacional, «2019 Ano da Colaboração», onde se fomentou o espírito da colaboração para se apoiar mais. Criámos a nível local o slogan “Mãos Dadas – porque vamos + longe”. E daí tentámos passar para o terreno esse espírito.

Por exemplo, quando fazemos uma intervenção numa habitação, sempre tal seja possível, não concedemos um apoio a 100%. Se fornecemos mão de obra, o beneficiário deverá contribuir com materiais (ou vice-versa). Envolvemo-lo no processo. 

Tivemos casos em que fomentámos a participação de familiares que tinham ofícios necessários para a obra. Apelámos a empresários que fizessem alguma contribuição, por exemplo, uma lata de tinta. Deste modo poupamos recursos, podemos chegar a mais famílias e também fazemos com que os tais beneficiários deem mais valor ao que conseguiram porque ali também está o resultado do seu próprio esforço. 

É também o caso dos móveis. Cidadãos que estão a fazer remodelações nas suas casas ou que vão vender habitações de familiares e não querem aproveitar as mobílias, ao fazerem ofertas à Junta, nós encarregamo-nos de as fazer chegar a quem delas necessitam.