Enterro do Galo desenterra críticas a políticos e a comportamentos sociais

Com direito a fanfarra e até a uma marcha fúnebre própria composta nos anos 90 por um compositor da Sociedade Filarmónica Alpiarcense 1o de Dezembro, foi a enterrar ontem, Quarta-feira de Cinzas, o Galo!

Como manda esta septuagenária tradição de Alpiarça, o cortejo saiu da sede da Sociedade Filarmónica rumo aos Águias com seus músicos cobertos de lençóis brancos, população e, claro, o Galo! Diz-se que é costume o galo ser roubado e o dono do bicharoco, alheio ao crime de que foi alvo, é pago em doces versos de escárnio.

Um misto de pagão e cristão, este é um ritual que marca o fim de um ciclo e o começo de uma etapa na vida da comunidade: a proximidade da Primavera traz o renascimento, o amanhecer, um novo dia. E este processo de “enterrar” o que ficou para trás aparece representado ,tal como na tragédia grega, num certo “soltar o que se lhe vai na alma”! Vestidos de capa preta e na presença do galo, dois elementos da organização declamaram os versos de escárnio e mal dizer que alpiarcenses anónimos foram deixando na sede dos Águias.

Da política local à política nacional, infidelidades, mal amados, comportamentos e opções sexuais, políticos ou simples desconhecidos, casos que deram que falar… tudo é motivo de chalaça. Hoje, e longe já dos tempos da censura, fala-se livremente, diz-se o que não se precisa de esconder mas no meio de tanta sinceridade, permanece a subtileza da arte de maldizer! No final do enterro, o Galo foi rifado a favor da banda filarmónica e foram dadas como terminadas as celebrações do Entrudo. Deixamos aqui ficar alguns versos dos muitos que foram lidos neste evento que contou com a presença da presidente da Junta de freguesia, Fernanda Cardigo e de dezenas de populares.

“Está a chegar o momento ansiosamente esperado/ da inauguração do Jardim, até ando apoquentado/
Passei há dias por lá e fiquei muito espantado/ de Jardim nada vi, devo andar muito enganado./
O que lá está minha gente, é só pedra e mais Betão / até tem um arruamento,só lhe falta por o alcatrão.
Tem uma casa em cubo, que parece um crematório/ E outro cubo ao lado, que deve ser pró velório.”