Comemorações do 5 de Outubro lembram o republicano José Relvas

Num dos seus últimos atos públicos como presidente da Câmara Municipal de Alpiarça, Mário Pereira depositou ao início da manhã desta terça-feira, uma coroa de flores junto à estátua do republicano e “patrono” de Alpiarça, José Relvas, localizada no Jardim Municipal.

No final desta cerimónia, Mário Pereira salientou a importância de José Relvas para a consolidação do regime republicano e na afirmação dos direitos de liberdade e igualdade no país.

Estiveram também presentes o Presidente da Assembleia Municipal, Fernando Louro, os vereadores Casimira Alves e António Moreira, a Presidente da Junta de Freguesia, Fernanda Cardigo, o conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, Nuno Prates e mais convidados.

Foi assim há 111 anos…

O Diário de Notícias, na primeira página da sua 4ª edição do dia 5 de outubro de 1910 descreve assim os primeiros instantes da República:

“A’s 8 horas e meia da manhã de hoje, foi proclamada a República, sendo içada nos diferentes estabelecimentos públicos a bandeira verde e encarnada. O povo dirigiu-se à Câmara dando vivas a República, acompanhado pelas praças de artilharia e mais regimentos. A’s 8.20 as forças que estavam no Rossio, entregaram-se sendo muito vitoriadas. Os membros do diretório, foram em seguida para a Câmara Municipal onde fizeram a proclamação.
Em toda a cidade há entusiasmo e algumas bandas regimentais percorrem as ruas tocando a “Portuguesa”. Como complemento dos acontecimentos que em seguida noticiamos e acompanhamos até ás 6 horas da última edição deste jornal devemos dizer que os vencedores foram muito vitoriados pelo povo e procederam com a maxima urbanidade procurando evitar mais derramamento de sangue.”

De facto, os dias que antecederam a proclamação da República, como ainda o próprio dia 5 de outubro, foram sangrentos. A ação bélica da Carbonária e dos Anarquistas nas ruas de Lisboa, a resposta das forças militares e alguma confusão causada pela falta de comunicação causou mortos, feridos e pânico na cidade. Num edital do Governador Civil, Eusébio Leão (nomeado Governador Civil no próprio dia 5 de outubro) divulgado pela cidade de Lisboa apela-se à tranquilidade pública e ao respeito por todos os portugueses. Na revolta do 5 de outubro foram contabilizados 78 feridos e 14 mortos. A confusão era de tal ordem que na noite de 4 de outubro, o vice-almirante Cândido dos Reis, um militar cujo papel foi crucial para a revolta, na incerteza da vitória, pôs termo à vida.

Foi necessário um ato que confirmasse a república como o novo regime e que o colocasse sob uma bandeira pacificadora.

Então, os dirigentes do Partido Republicano Português dirigiram-se aos Paços do Concelho. Ladeado por Eusébio Leão e Inocêncio Camacho, José Relvas proclamou a República, com as seguintes palavras, às 11 da manhã: “Unidos todos numa mesma aspiração ideal, o Povo, o Exército e a Armada acabou de, em Portugal, proclamar a República”. De seguida, Camacho anuncia os membros do Governo Provisório –  Joaquim Teófilo Braga (Presidente), a pasta do Interior foi ocupada por António José de Almeida; a da Justiça por Afonso Costa; a do Fomento por Manuel de Brito Camacho (substituindo António Luís Gomes); a dos Negócios Estrangeiros por Bernardino Machado; a das Finanças, por decreto de 12 de Outubro, por José Relvas (já que o indigitado Basílio Teles não chegou a assumir as funções, por alegado motivo de doença); a da Guerra por António Xavier Correia Barreto e, por fim, a da Marinha (a partir de dia 10 de Outubro, denominado de Marinha e Colónias) por Amaro Justiniano de Azevedo Gomes.

Implantar a República

Depois do assassinato de rei D. Carlos e do seu filho, o sucessor natural ao trono, o sistema monárquico não sofreu alterações. As políticas de João Franco, nomeado por Hintze Ribeiro, deixaram claro que o regime republicano era a solução. Uma situação económica desastrosa, uma crise social aguda e a política envolvida em querelas entre regeneradores e progressistas, não abonava a favor do prolongamento agonizante da monarquia. O congresso do Partido Republicano no Porto, em abril de 1910, confirma isto mesmo. E traz à discussão um outro assunto de extrema importância para um país transcontinental – o reconhecimento e a aceitação internacional de um Portugal republicano.

Para esta “aprovação republicana” internacional ter garantias, José Relvas integra uma comissão, criada por este congresso, que em julho e agosto de 1910, rumam a França e a Inglaterra em missão diplomática.

O certo é que em julho de 1910, Sampaio Bruno e Guerra Junqueiro já completaram a texto final da Proclamação da Implantação da República.

No dia 4 de outubro é proclamada a República em Loures, Almada e na Moita. Curiosamente, os ímpetos republicanos misturam-se aos sons de “A Portuguesa” e da “Marselheza”. Em Lisboa, a pouco e pouco os navios de guerra, o “Adamastor”, “S. Rafael” vão içando a bandeira republicana. O cruzador “D. Carlos” tarda em mudar a cor da bandeira. A madrugada ainda é de sangue. Ouvem-se estrondos pelas ruas. A pouco e pouco, Lisboa vai-se vestindo de verde e vermelho.