Alpiarcenses pelo mundo: A vez de Nuno Capitão

Nuno Capitão é, assumidamente, um entusiasta dos ‘motores’ com paixão pela gastronomia. Alpiarcense com ‘alma’ africana, criou família em São Tomé e é por lá que pensa permanecer até ao dia do seu regresso definitivo a Portugal, que assegura não estar programado para breve.

Como recorda a sua infância em Alpiarça?
Foi uma infância normal como a de todas as crianças da minha altura. Alpiarça era uma vila tranquila, na altura. Menos do que hoje, os tempos são outros… Cresci e vivi em Alpiarça até emigrar para São Tomé. Lá, fiz muitos dos meus amigos que até hoje se mantêm. É, igualmente, um sítio bom para se viver, boa gente, boa comida. Enfim, é a nossa terra.

Há algum episódio mais marcante da sua adolescência que queira partilhar?
Teria inúmeros episódios para relatar! Até aos meus 15 ou 16 anos sempre fui muito recatado, muito caseiro. A partir dessa idade foi uma mudança, com todos os novos amigos do liceu, com as tendências musicais da altura, com a compra da primeira mota, do primeiro carro, foi tudo muito bom… ainda hoje recordamos esses episódios, alguns deles com muito risco mas, felizmente, correu sempre tudo bem!

Quais são os seus hobbies?
Tenho paixão por tudo o que tem motor! Gosto de culinária e ainda mais de comer e beber!

Quando emigrou pela primeira vez e para onde?
Emigrei pela primeira vez em 1999, a convite de um grande amigo de infância de Alpiarça, que também se encontra em São Tomé até à data de hoje e que continua a ser daqueles amigos de referência, que se mantêm e daqueles com quem convivo quase diariamente. Iniciei, então, o percurso profissional em São Tomé como balconista no supermercado desse meu amigo. Posteriormente regressei a Portugal, mudei-me para Lisboa e trabalhei até 2006 em automóveis de alta gama. Regressei a São Tomé e iniciei um projeto na área da restauração junto com os meus pais, durante dois anos, que infelizmente não correu como esperávamos e os obrigou a regressar a Portugal. Eu fiquei. Hoje, trabalho numa empresa de renome na área da publicidade outdoor, onde desempenho funções na gestão da frota e equipamentos.

O que o motivou a fazê-lo?
Na altura, pela aventura e também pela necessidade de juntar algum dinheiro. Tinha 22 anos, era jovem, queria conhecer outros lugares, mudar de vida, sair de Portugal. Os meus pais sofreram muito na altura com a minha partida, com a minha ausência, sou filho único e não foi fácil.

Como descreve São Tomé, as suas paisagens, gentes e gastronomia?
São Tomé é uma ilha lindíssima, um sítio único, com paisagens muito verdes e com praias e um mar azul incrível. As pessoas identificam-se, naturalmente, com o país e os seus costumes, é tudo muito cheio de tradições, de crenças religiosas e espirituais. A gastronomia também é muito típica, muito peixe, muita fruta.

Em São Tomé fala-se português mas, decerto, haverá termos linguísticos bastante diferentes dos nossos. Conhece alguns?
São Tomé, para além da língua portuguesa, que é a língua falada regularmente por toda a gente, também tem os dialetos naturais do país, assim como o crioulo de Cabo Verde, que também é falado em algumas comunidades descendentes e naturais de Cabo Verde. O termo linguístico que talvez seja o mais comum é o “Leve Leve”, que traduz a tranquilidade, o “não faz agora, faz daqui a pouco”, o “nas calmas”, o “tá-se bem”, mas existem muitos outros em dialeto.

Há algum hábito típico são-tomense que o Nuno tenha adquirido?
Hábito específico, acho que não! Só o facto de viver em São Tomé já é um hábito num todo. É um modo de vida diferente, é uma ilha, toda a gente praticamente se conhece na cidade, toda a gente te conhece, nem que seja só de vista. Vive-se com muita qualidade, apesar da simplicidade. São Tomé é um país que tem muitas necessidades a muitos níveis, alguns deles básicos, mas acredito que vai dar “o salto!”.

O que aconselharia a alguém que quer viver e trabalhar em São Tomé?
Antes de mais, aproveitar umas férias para conhecer o país e só depois tomar decisões. Como se costuma dizer, “nem tudo o que brilha é ouro”, e é verdade, é Africa, é tudo muito diferente da Europa e, ao contrário do que muita gente pensa, tem de se trabalhar muito, apanhar com muitos dissabores, muitas “bocas”, algumas dificuldades, tem de se estar preparado psicologicamente para emigrar e, só no fim de tudo isso, partir. Acho que são as dificuldades de qualquer emigrante, para qualquer que seja o país ou parte do mundo.

Pensa regressar definitivamente a Alpiarça ou encontrou em São Tomé um novo lar?
No meu caso, em particular, estou frequentemente em Luanda onde trabalho e estou a pouco mais de uma hora e meia de avião de São Tomé onde tenho a minha casa, a minha mulher, que é natural de São Tomé e os meus dois filhos: um de oito e, o mais novo, de dois anos. Trabalho dividido por três paí- ses, entre Angola, São Tomé e Cabo Verde, estou perfeitamente integrado e, sinceramente, não me vejo a trabalhar fora deste meu “ambiente”, de África. Penso, sim, um dia regressar ao meu país, com certeza, mas para já, não. Estou, neste momento, num novo projeto a nível profissional no qual estou bem. Felizmente, faço o que gosto e acima de tudo preciso de dar um futuro aos meus filhos, que são o mais importante para mim e para ver se consigo ter uma vida tranquila.

Que lhe deixa saudades na sua terra natal?
Em primeiro lugar, os meus pais, sem dúvida. Depois, a terra, em si; num modo geral, a comida, o verão em Alpiarça, as vinhas, o melão, o tomate, mas também o Inverno. Afinal, o Natal sabe bem é no frio, e acho que já não passava um Natal no frio há oito anos, desde o último.

Quer deixar uma mensagem aos seus familiares e amigos?
Muita saúde, muitos sucessos. Felicidades.