Alpiarcenses pelo mundo: A vez de Ana Teodoro Cracea

Ana Teodoro Cracea, “a filha do Alentejano” – como é conhecida em Alpiarça – tem 23 anos e os pés bem assentes em Inglaterra. Embora guarde muitas e boas memórias da vila, esta emigrante confessa não fazer planos para regressar a Portugal ainda que isso possa dececionar os seus familiares.

Como foi a sua infância em Alpiarça?
A minha infância foi como a da maioria naquela época, muita liberdade para brincar na rua e em casa dos vizinhos, sem maldade genuína, éramos mais ingénuos e fomos crianças até mais tarde, comparando com as crianças de hoje em dia, qualquer coisa nos entretinha e nos levava a imaginar um mundo só nosso.
Pode relatar um desses momentos?
Visto a minha família ter o café, eu estava sempre rodeada de movimento, de pessoas de todas as idades e ouvia todo o tipo de conversas e achava-me bastante adulta, dava sempre os meus palpites. Um episódio bastante recorrente era eu, aos fins de semana, andar de casa em casa dos vizinhos, e almoçar com uns, lanchar com outros e jantar com outros tantos. Quando voltava para o café, a minha avó tinha sempre a minha comida favorita à minha espera e eu não queria fazer-lhe uma desfeita!
Em que cidade de Inglaterra vive?
Eu vim para Maidstone, a “capital” do condado de Kent, conhecido como o “Jardim de Inglaterra”, há cerca de quatro anos e meio.
Que motivo a levou a emigrar? Porquê Inglaterra?
Enquanto os meus colegas se preparavam e angustiavam com a entrada na faculdade eu pensava em ter um trabalho com o qual pudesse pagar o meu próprio espaço, sendo independente a todos os níveis e ajudar os meus pais. Não via futuro nem opções em Portugal. O facto de o meu marido ser romeno foi também um fator a favor, porque ele não teria o mesmo tipo de oportunidades laborais e salariais como tem aqui, exatamente pela sua nacionalidade. A minha tia estava cá bem estabelecida e ajudou-nos com tudo – obrigada tia Mila.
Como descreve Inglaterra, as suas paisagens, gentes e gastronomia?
Toda a gente sabe que aqui é a terra da chuva e do céu cinzento, mas tem muitas, mesmo muitas vantagens e pontos positivos. As paisagens fora das cidades – que são muito barulhentas, cinzentas, só tijolos – são esplêndidas: verdes, limpas, com montanhas, lagos, parques e reservas naturais. Inglaterra não é só Londres. A maioria dos habitantes são estrangeiros, de todos os pontos do mundo, uma grande miscelânea de tradições, crenças e estilos de vida, o que só enriquece. Gastronomia? Bem… Só se for o bife de vaca, a carne bovina é ótima aqui, grelhada e com molho, o gravy, acompanhado de puré de batata e ervilhas ou o Sunday Roast – o assado de domingo – composto por legumes, batata, frango ou carneiro no forno com gravy por cima.
Há algum hábito típico britânico que a Ana tenha adotado?
Hábito? Sem dúvida: chá preto com uma pinga de leite e bem doce! Ainda não acertei com a pontualidade britânica mas mais uns anos e chego lá!
O que aconselharia a alguém que quer viver e trabalhar em Inglaterra?
A mudança não é fácil, em especial quando não se tem alguém conhecido, creio eu. É preciso muita perseverança, força de vontade e a noção da realidade social e económica em que pretendem viver.
Pensa regressar definitivamente a Alpiarça ou encontrou em Kent um novo lar?
Posso dececionar vários familiares mas não penso voltar a viver em Alpiarça. Nunca digo nunca, mas a verdade é que me enquadrei bem aqui e gosto, nos primeiros meses detestava. Primeiro estranha-se e depois entranha-se.
Quer falar um pouco da sua experiência profissional em Inglaterra?
Já fui a “mulher dos sete ofícios”: embalei fruta, fiz bolos, vendi internet de porta a porta, limpei casas; oportunidades nunca faltaram, sempre consegui trabalho. Finalmente, faço o que gosto: trabalho num café/snack bar e não é só pelo trabalho em si, mas pelas oportunidades futuras e a equipa com quem trabalho, não a trocaria por nada.
O pós-Brexit teve um efeito de grande escala no que toca a ataques xenófobos e racistas, tendo até influenciado negativamente a economia do país. De que forma viveu a Ana estes efeitos?
Os efeitos do Brexit, em termos da situação de cada indivíduo, ainda não são “reais”, é uma decisão envolta em muita especulação, que tem, de facto, afetado o valor da Libra, mas ainda há-de correr muita tinta. As opiniões são variadas, tanto entre estrangeiros como britânicos. Eu já passei por uma situação em que, literalmente, um senhor me mandou de volta para o meu país, eu não tinha trocado uma única palavra com o indivíduo, de idade avançada, nem o conhecia, mas ele disse o que pensava e tem o direito a isso, eu educadamente respondi que não sairia daqui, a não ser que me obrigassem. Foi um episódio estranho, não humilhante, não tenho vergonha nem me senti envergonhada. O que tenho receio é quando, efetivamente, as decisões forem tomadas quais os efeitos que terão na educação do meu filho.
Que lhe deixa saudades na sua terra natal para além da família e amigos?
A minha família, se bem que os meus pais, o meu irmão e a minha irmã do coração, Inês, estão comigo. E devo-lhes muito mesmo. Os amigos do tempo de escola, com quem ainda mantenho o contacto, o sol maravilhoso! E a pastelaria portuguesa, aqui ninguém sabe o que são pampilhos, o que me entristece! [risos]
Que deixar uma mensagem aos seus amigos e familiares?
Espero ver quem mais gosto em breve e que estejam melhor que da última vez, as saudades são mais que muitas. E muito obrigada pela oportunidade.