Alpiarcenses pelo Mundo: A vez de Aida Agostinho

Aida Agostinho é uma emigrante alpiarcense que transpira alegria e otimismo. Foi com essa atitude positiva que esta enfermeira de 28 anos viajou para terras de Sua Majestade e conseguiu dar novo fôlego à sua profissão.

Que memórias guarda da sua infância em Alpiarça?
Muitas coisas, muitas boas coisas! Tive uma infância muito feliz! Tínhamos sempre casa cheia, com os amigos lá. Aventurávamo-nos de bicicleta para todo o lado, houve até um dia em que dei um grande trambolhão e me esfolei toda, mas isso não me parava! Lembro-me sempre muito da minha bisavó que ralhava muito comigo e com o meu irmão nos dias de calor quando ligávamos a mangueira e molhávamo-nos todos, ela não gostava que gastássemos água à toa! Fazia guerras de torrões com o meu irmão e duas amigas nossas. Andava sempre toda “encardida”, como se diz na terra, mas divertia-me muito! Tenho pena que as crianças de hoje em dia vivam tão presas aos telemóveis,computadores e etc, sempre em casa quando há tanto para fazer na rua.

Quando e por que motivo emigrou? Porquê a Inglaterra e particularmente Londres?
Bem, Inglaterra pela facilidade que tenho na língua, sempre gostei de Londres, cheguei a vir cá em turismo e adorei a cidade. O motivo foi o mesmo que muitos dos meus colegas: insatisfação e frustração. Trabalhei cinco anos no hospital e posso dizer que ganhava mais no início do que na altura que saí. Pouco reconhecimento do trabalho que fazemos por parte das chefias, os rácios enfermeiro-doente que nos levam à exaustão, o facto de ter a carreira congelada, não havendo progressão. Aos 25 anos enviei o CV para uma empresa que trabalha com hospitais de cá e arranjaram uma entrevista no Porto. Fui à entrevista e selecionaram-me no mesmo dia. Ofereceram boas condições, eu vim!

Sentiu-se bem recebida?
Muito. Fiquei surpreendida. Temos ideia de que os ingleses são snobs mas nada disso: recebem muito bem, fazem-te sentir que pertences aqui. Nunca ouvi uma palavra racistas pelo facto de ser emigrante. Os meus doentes, quando digo de onde venho, ou dizem que já estiveram em Portugal e que adoraram ou pedem dicas para quando forem. Até tentam dizer “obrigado” em português. No meio hospitalar gostam muito dos enfermeiros portugueses. Temos uma ótima formação ao longo do curso, integramo-nos bem e temos aquela qualidade tão nossa que é o “desenrasca”!

Como descreve Londres e a sua adaptação à cidade?
Londres é uma cidade em constante movimento. As pessoas andam sempre na rua, pouco param em casa, saem do trabalho vão aos pubs onde comem qualquer coisa e vão para casa dormir. Penso que o clima e a comida são o pior: quase temos as quatro estações num dia. Têm o famoso fish and chips (dispenso) e aos domingos têm o Sunday roast, que é carne assada com puré e vegetais. Lembro-me de estar cá ha umas semanas e comprei uma sopa, fui a comer e era picante! Os sítios com cozinha mais britânica são mesmo os pubs, com costeletas e hambúrgueres que são muito bons! Em termos de adaptação sempre fui muito independente, decidida e com boa capacidade de integração. Mesmo assim o primeiro mês posso dizer que foi horrível e muito stressante. Não tinha ninguém com quem ir beber um café nas folgas, ainda estava a viver em Londres com ordenado português, o que limita muito. Praticamente sentava-me num café a ouvir música e a estudar.

Já adotou algum hábito típico britânico?
Sinceramente penso que não. Só se for a beber pints (cerveja de meio litro) em vez da mini. Acho que sou muito portuguesa. Gosto do meu café forte e do chá sem leite!

Durante a sua visita ao Reino Unido, Barack Obama apelou aos britânicos para que votassem contra o “brexit”, a saída do Reino Unido da União Europeia. Acha que, a acontecer, essa medida vai afetar os milhares de emigrantes portugueses que residem neste momento no país?
Não penso que nos expulsem nem nada disso, pagamos os nossos impostos e contribuímos para o crescimento do país. Mas a situação não deixa de preocupar, principalmente para a entrada e saída do país e o aumento do preço dos bens de consumo diário. A emigração para aqui torna-se mais complicada, claro. Por cá há grande propaganda para o Reino Unido ficar na U.E. Vai haver referendo em Junho, vamos ver no que dá.

Inglaterra, é de vez ou apenas uma passagem com vista a um regresso definitivo a Alpiarça?
Regresso a Alpiarça… não. Gosto muito da minha terra e tenho lá as minhas raízes, hei-de sempre lá voltar, mas não para morar definitivamente. Como costumo dizer, vim com one way ticket [bilhete só de ida], o regresso logo se vê, não será para já, de certeza. Gostava de voltar para Portugal um dia, mas quando será, não sei.

O que lhe deixa mais saudades em Alpiarça? Quer deixar algum agradecimento?
A qualidade de vida. Dar uma voltinha na barragem ao final do dia, as tardes numa esplanada com os amigos e a família! Aos meus amigos, sei que não sou daquelas pessoas que telefona muito ou manda muitas mensagens mas nunca me esqueço deles e estou sempre desejosa de os ver. À minha família, não podia ter pedido melhor, um beijinho enorme com muitas saudades! Adoro-vos a todos!
Um beijo gigante ao meu namorado que nunca me deixou desistir e me atura muito!