“Acaba por ser diferente das aulas que é uma rotina, aqui não, aqui fazem-se coisas diferentes”

“O Alpiarcense” foi conhecer o projeto “Clube Europeu” da escola José Relvas. Este é um projeto fundado pela professora Virgínia Esteves, que já tinha participado no mesmo projeto no Agrupamento de Escolas de Almeirim. A professora apresentou o projeto à direção em 2013 que acedeu de imediato, sendo fundado o clube. Estivemos à conversa com as professoras Virgínia Esteves (V.E), Isabel Costa (I.C) e Cristina Louro (C.L),responsáveis pelo Clube Europeu.

Em que é que consiste o Clube Europeu?
V.E: O Clube Europeu está vocacionado para a cidadania europeia, para promover aprendizagens formais e não formais na área da cidadania europeia e também dar aos alunos a oportunidade de participar em projetos de nível nacional ou internacional com diferentes colegas, para poderem desenvolver um ensino mais colaborativo, cooperativo, onde as aprendizagens são feitas de forma mais lúdica, não com os conteúdos propriamente estipulados, mas de forma mais lúdica.

Como é que funcionam as dinâmicas de atividade no clube europeu?
V.E: As dinâmicas de atividade são desenvolvidas pelas três professoras e somos nós no início do ano que definimos o que é que vamos fazer durante o ano letivo. Fazemos uma planificação das atividades, o que é que podemos participar, o que é que não podemos participar e é acordado pelas docentes do Clube Europeu.

Que tipo de atividades é que desenvolvem durante as sessões?
V.E: De acordo com a planificação, nós procuramos ver também sempre o nosso plano anual de atividades para incluir o Clube Europeu nesse plano anual e depois, consoante decorre o ano, por vezes surgem algumas oportunidades que nós tentamos sempre aproveitar. Algumas coisas no início do ano que nós não temos conhecimento que vão acontecer e depois somos convidados e acabamos por aceitar ou não. Se for de interesse para os alunos, claro que aceitamos. Agora, as dinâmicas são feitas em dois tempos que foram atribuídos pela direção às professoras que lecionam o clube europeu, os alunos que frequentam participam nessas duas horas semanais e depois dentro dessas duas horas semanais nós organizamos atividades consoante os projetos e as atividades que temos para participar.

Em que projetos é que já participaram este ano?
V.E: Já fizemos um projeto em parceria com a câmara municipal e com a fundação José relvas, com os valores de Natal, com a valência dos idosos da fundação, em que levamos os nossos alunos ao lar e eles fazem sempre um projeto com os idosos, este ano voltaram a fazer as coroas de reis e ensaiaram uma canção e depois o projeto culminou com a apresentação na câmara municipal, no Dia de Reis a cantar as Janeiras. Já participamos também em dois projetos, um para os alunos do ensino secundário, o concurso “Euroescola” que é promovido pela Comissão Europeia, em Lisboa e participamos com os alunos mais novos no concurso “Eu Sou Europeu”, que também é promovido pela mesma instituição, portanto pela comissão europeia e em Portugal pelo Espaço Europa. Participamos ainda no projeto Erasmus Mais a nossa parceria com mais quatro países da europa e que temos também muitos trabalhos para desenvolver com os alunos e só temos 90 minutos semanais, não é fácil e toda a preparação que envolve as mobilidades, a preparação dos alunos, as entrevistas, a seleção, tudo isso temos de fazer durantes estes 90 minutos. Participamos na Feira da Europa, num desfile de carnaval, portanto com 90 minutos e com 30 alunos não é fácil.
I.C: Há aqui dentro atividades que nós fazemos para promover todos os valores, até o conhecimento de alguns aspetos da comunidade Europeia, fazemos quizs criados pelos alunos com que eles aprendam o que é a Europa, focamos muito nos 28 países da comunidade europeia, explicar-lhes como é que funciona o parlamento europeu e essas coisas, eles pesquisam e aprendem muito aqui, ou seja saímos um bocadinho daquilo que são os conteúdos típicos das disciplinas. Este ano focamo-nos muito nos valores da europa, porque é o tema “Por uma Europa de valores” que é o tema deste ano.

Acabam por conseguir incluir algumas matérias que são lecionadas noutras disciplinas aqui no clube europeu?
V.E: Sim, nomeadamente a geografia que tem a ver com toda esta dinâmica do clube Europeu, o próprio português, a escrita do português, inglês, o espanhol, portanto todas essas disciplinas acaba depois por ser transversal, portanto eles quando foram tiveram de preparar coisas sobre o nosso país, tiveram de fazer uma pesquisa a nível da população, da história da Europa, mesmo os gráficos, a nível da matemática, acabamos por focar. Eu acho que o clube é transversal porque acaba por focar tudo um pouco.

Os meninos fazem as coisas por gosto ou pensam “mais um trabalho, mais uma pesquisa…”?
V.E: Não, não sentimos muito isso, falo por mim.
I.C: Eles estão aqui porque se inscrevem.
V.E: Depois eu acho que nós não fazemos sempre a mesma coisa, eles quando vêm nunca sabem bem o que é que vão fazer, se vão lá para fora pintar, se vão dançar, se vão cantar, se vão fazer apresentações… Eles não sabem bem para o que vêm, é um pouco diversidade de atividades. Eu acabo por não os ver desmotivados e fartos. Esta apresentação que viemos fazer, este ano ainda não tínhamos feito uma apresentação assim, em que estivessem todos sentados, portanto foi a primeira vez. Acaba por ser muito diferente e por isso é que eles todos os dias, quando nós ainda vamos para a sala perguntam “ o que é que vamos fazer hoje?”, acaba por ser diferente das aulas que é uma rotina, aqui não, aqui fazem-se coisas diferentes.
I.C: Faltou-nos falar da vinda dos eurodeputados e dos deputados que todos os anos temos um ou mais do que um, que também por questões que nós não conseguimos controlar vamos ter só no dia nove de junho o deputado do parlamento europeu, Carlos Zorrinho. Nós trazemos sempre alguém e isso tem de ser sempre preparado, ou seja, eles fazem a apresentação, pesquisam sobre a biografia dele e isso também os ajuda porque eles têm de construir texto, têm que preparar a apresentação, têm que fazer um vídeo de apresentação, têm que assumir uma postura, aqui ganham competências que lhes vão servir para o resto da vida e às vezes isso no contexto sala de aula perde-se um bocadinho e aqui não.

Como professoras de outras disciplinas notam mais desenvoltura em termos de apresentações orais nos miúdos do Clube Europeu? Com estas experiências de ir lá fora, contactar com outras culturas, nota-se uma desenvoltura no dia-a-dia deles em termos de alunos?
V.E: Eu penso que não só nas apresentações como desenvolturas, mas também como pessoas. Eu acho que eles acabam por trazer uma ideia diferente. Quando vão, levam alguns estereótipos e depois quando vêm acabam por ver depois que as coisas são muito iguais. E acho que eles conseguem aceitar muito melhor e já veem a Europa sem fronteiras, onde as pessoas podem circular, onde qualquer um pode tomar a posição, que não é malvista. Esta parte do aceitar, a parte do respeitar, acho que eles conseguem muito melhor que se calhar alguns que não saíram daqui e que também não tiveram oportunidade. E essas posturas depois, claro que se nota na parte das apresentações, porque todas estas aprendizagens não formais vão com certeza acabar por influenciar depois quando os alunos estão em sala de aula.
I.C: Os alunos do Clube Europeu não têm problemas em fazer grupos, facilmente formam um grupo, facilmente assumem a postura de líder do grupo porque estão habituados a trabalhar assim, facilmente dividem tarefas porque aqui quando nós os colocamos em grupos nós não precisamos de dizer quem é que faz o quê, eles próprios já se dividem nas diferentes tarefas. Isso nós notamos mais ainda com os alunos que estão há mais tempo no Clube Europeu, temos aqui alunos desde o início, que quando começaram estavam no quinto ano. Isso faz a diferença.
V.E: Como nós temos todos os níveis de ensino, desde o segundo ciclo ao secundário, eles acabam por ter uma relação engraçada porque os mais velhos quase que adotam os mais pequenos e não há rivalidade. Há um espírito de entreajuda que não é às vezes normal.
Professora 3: Os mais pequeninos são muito trabalhadores, têm uma dinâmica muito boa e acaba por entusiasmar também os mais velhos.

O Clube Europeu foi formado aqui na escola há quanto tempo?
V.E: Foi há quatro anos, eu estou aqui efetiva já há oito anos, mas os primeiros quatro estive destacada em Almeirim e depois, quando regressei, como eu já tinha formado o clube em Almeirim, perguntei se havia, disseram-me que não. Perguntei se podia fazer um projeto e apresentá-lo à direção e disseram-me que sim, teriam todo o gosto em ver o projeto. O projeto foi aprovado e depois não foi difícil encontrar colegas para trabalhar no clube.
“O Alpiarcense” conversou também um pouco com dois alunos do Clube Europeu, o Kiko e a Ana, que já representaram a escola no 12.º Encontro de Clubes Europeus em Varsóvia, Polónia.

O que é que achas que o Clube Europeu vai contribuir para o teu futuro?
Kiko: Nós aprendemos muitas coisas, nomeadamente sobre a Europa, os valores, fazemos várias atividades sobre esse assunto e também dá-nos experiências únicas, como o Erasmus Mais. Acho que é uma experiência que vai privilegiar-nos no currículo para entrarmos numa universidade, emprego, etc…

Na Polónia, gostaram? Acham que foi enriquecedor para vocês, como pessoas?
Kiko e Ana: Sim, sim, muito. Essa é uma pergunta difícil, mas nós conhecemos novas pessoas, novas culturas e isso vai enriquecer a nossa cultura geral.
Ana: O Clube Europeu vai ser uma ferramenta para o futuro, que contribui bastante devido a estas experiências que nós estamos a ter.

Quanto às atividades, vocês não pensam “Mais uma coisa para fazer…”? Isto é uma coisa paralela às aulas, vocês têm os vossos trabalhos, têm de estudar para os testes, vocês não encaram isto como uma seca?
Kiko: Não, não! São coisas complemente diferentes do que nas aulas, porque na escola estamos agarrados a um programa, no clube não. No clube aprendemos coisas divertidas que eu gosto! Eu nunca pensei assim, penso sempre “Que fixe! Brutal! Vamos aprender coisas novas!”.