Paulo Espírito Santo: Um Campeão no Ténis em Cadeira de Rodas

Até há uns anos atrás dizia-se dele que “nunca perdia um set” e para perder tinha de ir ao estrangeiro! Em Espanha chegou a ganhar ao atual 3º melhor jogador de Ténis. Desde sempre que pratica ténis. Um acidente de mota em 1989 trocou-lhe as voltas.

Um dia no quintal da casa, o filho e um amigo jogavam com umas raquetas e ele pediu: “empresta-me aí para ver se eu ainda sei dar umas batidas!” E sabia! Em 2002/2003 iniciou a prática do Ténis em cadeira de rodas pela mão do antigo vice presidente da Federação Portuguesa de Ténis, Basílio Pinto Basto, na altura em que uma delegação holandesa de Ténis veio a Portugal.

O Ténis em Cadeira de Rodas surgiu nos Estados Unidos da América, “inventado” por veteranos da guerra do Vietname. Paulo Espírito Santo é o veterano alpiarcense que, como dizem os colegas, “tem mais técnica que qualquer outro jogador português”! Quase sete décadas de existência passada e já reformado, falou desta modalidade, das suas técnicas, das suas particularidades. Falou de práticas de cidadania, de igualdade de oportunidades. Conta que, quando era membro da Assembleia Municipal, para assistir às reuniões tinha de se levado ao colo pelas escadas ou subi-las sentado! Hoje já há rampas! Mas é preciso nunca esquecer que, digam o que disserem, nascemos todos iguais e com os mesmos direitos enquanto cidadãos.

Campeonato Nacional de Ténis em Cadeira de Rodas/Taça Angelini Farmacêutica. Chegou às finais mas acabou por perder o título por 6-2 e 6-0.
Finais Pares. Nos singulares perdi na 1ª ronda com o Carlos Leitão que foi à final e acabou por se sagrar Campeão Nacional. Em termos de campeões nacionais fui eu durante muitos anos, depois o Carlos Leitão e agora é um rapaz que vive no Canadá, o João Paulo Melo, e que vem cá para os campeonatos nacionais e internacionais. Este é um campeonato anual sempre com o patrocínio da Federação e organizado em simultâneo com o Campeonato Nacional Absoluto, homens e senhoras.

Fez dupla com o João Sanona…
Sim, que é de Setúbal. E o nosso jogo correu desastrosamente! Estávamos convencidos que as coisas nos iam acontecer bastante melhor mas no desporto é mesmo assim.

Há mulheres no Campeonato de Ténis em cadeira de rodas?
Não. Têm aparecido umas senhoras a praticar a modalidade mas não em número suficiente que dê para participar em campeonatos só senhoras. E depois a maior parte, por razões várias, não se fixam na modalidade.

Qualquer pessoa pode jogar ténis?
O ténis tem esta particularidade: é muito agradável para quem consegue passar o primeiro estágio mas depois, a evolução na prática do ténis obriga a uma resiliência, vontade e determinação e a uma enorme capacidade para sofrer. Toda a gente pode jogar ténis mas quem o pratica tem de estar preparado para treinos diários intensos. Se estivermos a falar em termos de campeonato nacional absoluto, a jogar em pé, já é uma modalidade para horário completo, seis horas por dia, com atividade física, ginásio, treinos bi diários (horário de manhã com intervalo para uma refeição nutriciamente adequada). Neste ponto já falamos em alta competição. Não é fácil obter grandes resultados no ténis. Para isso é preciso treinar com assiduidade. Existirão outras modalidades que muito provavelmente começam a ter resultados mais cedo. Eu treino 5 dias por semana, duas horas por dia.

Falamos em competição ao nível do Estoril Open?
Sim. O Estoril Open tem apresentado grandes jogos, não só no campo central mas nos jogos que se desenrolam nos campos secundários e muitas vezes as pessoas estão só concentradas nos jogos principais e perdem grandes jogos.

Pode-se falar na questão de ter sorte ou azar no jogo?
Se um atleta tiver muitas expectativas… Se for fazer um jogo pelo jogo em si, independentemente da ideia de ganhar ou perder o jogo, nunca pensará em termos de sorte ou azar; perde porque o outro jogou melhor, porque a pancada do outro foi mais rápida, porque o pôs a “dançar”. Agora se tem as expectativas muito elevadas, começa a ficar tenso, e isto é o pior que pode acontecer a um jogador de ténis. Num atleta, os músculos têm de estar soltos porque a bola é pequena, é lançada a cento e tal quilómetros por hora e não é possível prever o seu ressalto. São frações de segundo o tempo que o atleta tem para responder num espaço de três centímetros correspondente ao “momentum”, o espaço compreende o momento de colocar a bola e a raqueta na posição de lançamento. E cada jogador é diferente: há jogadores de bolas rápidas, altas, baixas; tudo são características próprias de cada um. É todo este timing que torna o ténis difícil para dominar. Para diminuir a margem de erro temos de bater muitas bolas. Não é preciso ser fora de série. Isso não existe. Nós somos “tábua rasa”. Nascemos assim mas vamos trabalhando e empenhando-nos no que fazemos. Essencialmente é preciso divertirmo-nos.

Que competições existem desta modalidade?
Existe o Campeonato Nacional que é o topo das competições. Depois existem os torneios. Todos vão a estes torneios. Houve um torneio agora em Castelo Branco que eu ganhei embora tivesse perdido um jogo. Normalmente em pares saio-me bem.

Não é mais difícil jogar a pares?
Bem, como sou um rapaz cuja juventude já passou por mim há algum tempo, os meus adversários têm todos menos 30 anos do que eu! Como vê, o ténis tem muita deslocação no campo e eu diminuo o espaço que tenho de percorrer jogando a pares. Sempre gostei de jogar a pares e entendo-me bem assim. Sei ler melhor o jogo pares do que o jogo de singulares. Tenho sempre melhores resultados a pares desde que tenha um parceiro a 100%.

Há jogadas que se preparam a pares?
Sim, claro! Como o ténis a pé. Normalmente, as bolas do lado esquerdo são mais rápidas. E depois como o lado esquerdo é mais atacado, muitos jogadores desenvolvem técnicas de defesa da esquerda do que da direita mas atacam melhor à direita. Por exemplo, há tacadas que são preferíveis no ataque à direita na 1ª bola para se defender e fechar o ponto à esquerda. Outras vezes ataca-se a esquerda e é bater até doer! Subir a bola com uma tacada curta, subir à rede para fazer o “volei”… Há muitas! Nós em cadeira de rodas temos um problema: não há deslocações laterais por isso usa-se muito a bola por cima, sobe-se à rede e fazem-se cruzamentos. O jogo a pares consegue ser mais bonito do que o de singulares. Nós temos uma particularidade: temos de estar sempre em movimento. E isso torna o jogo muito dinâmico. Temos de treinar muito com os parceiros para conhecermos as tácticas, as técnicas um do outro.

Sai caro jogar ténis em cadeira de rodas?
Olhe, a Federação Portuguesa de Ténis tem neste momento uma série de cadeiras que disponibiliza a quem quiser iniciar – se nesta prática. Posso dizer que é mesmo mais barato do que jogar futebol! As chuteiras são caríssimas e duram pouco! A federação também tem raquetas. Se entrar num outro patamar, aí já é mais caro. Neste caso, ou entra na prática através de associações como a Salvador que tem um programa de apoio para compra de cadeira que para competição custam acima dos três mil euros ou “subsidia-se” a si próprio. Se retirarmos a cadeira que dura uma vida (tenho a minha há 20 anos!), o resto é perfeitamente suportável!

São precisos campos específicos?
Não, os campos de ténis são iguais. O que é mau são as barreiras arquitetónicas! Mas isto é o problema para todos os utilizadores de cadeira de rodas! O que nós precisamos é que percebam as nossas dificuldades! Porque é que fazem degraus? Toda a gente pode circular em rampas! Mas em degraus…nem toda a gente consegue andar! E não é só pessoas com cadeira de rodas! Aqui em Alpiarça, por exemplo, a Caixa Geral de Depósitos tem dois caminhos de acesso: uma rampa e degraus. Se estivermos atentos a maioria das pessoas usa a rampa! É mais fácil! Então para quê os degraus? Eu treino no Talent Discover em Santarém que tem condições ótimas tanto para o Ténis de pé como para o adaptado. As pessoas têm de perceber que estas coisas podem acontecer a qualquer um. Eu antes de 1989 não pensava em nada disto mas depois tive de pensar. Os acidentes podem acontecer a qualquer um dos nossos concidadãos. E as entidades oficiais têm a obrigação de zelar pelo bem-estar dos cidadãos para que, se lhes acontecer alguma coisa, não fiquem inibidos de ter ou fazer a sua vida por causa das barreiras arquitetónicas. Fala-se muito sobre as barreiras mas não se faz nada! É como a solidariedade: não se apregoa, pratica-se!

Entramos agora numa questão universal que é a inserção de atletas de desporto adaptado!
No que respeita ao Ténis a Federação apoia os atletas no seu treino individual. Neste momento a Federação está a pensar numa solução para os clubes que tenham jogadores ou deem emprego a pessoas portadoras de deficiência que passe por uma isenção de certos pagamentos ou comparticipações à federação. Assim seria uma maneira de se ter professores qualificados a apoiar estes jogadores. Mas deixe que lhe diga que as pessoas com deficiência são preteridas no mercado de trabalho. Ou seja, ou não têm empregos ou se os têm, têm uma remuneração mais baixa. Os números do desemprego são assustadores. Cá e no estrangeiro. Só que lá, os sistemas de apoio são diferentes. Mas as autarquias deviam ter um papel importante neste apoio e lembrarem-se dos munícipes com dificuldades de mobilidade. Fazem-se coisas parece que em cima do joelho! Primeiro fazem as coisas e depois é que se lembram se elas são funcionais! Os balneários das piscinas de Alpiarça são fantásticos mas todos são adaptados, isto é, não há um só para deficientes mas todos são possíveis de ser usados por todos! Assim é que deveria ser sempre! A piada é que me pediram para verificar se estavam as dimensões certas…depois de feitos! Imagine que não cabia a cadeira!
Mas nem tudo é mau: os atletas paralímpicos têm agora bolsas no mesmo valor que os olímpicos e que o orçamento para o desporto paralímpico vai ser aumentado quase para o dobro! Até que enfim! Os atletas olímpicos são profissionais; não fazem mais nada. Nós temos que ter um emprego para pagar os nossos treinos. Não esqueçamos que os paralímpicos são de todos os atletas os que mais medalhas trazem para Portugal