“Os miúdos gostam mesmo é de voar”

Existe em Alpiarça, no Clube Desportivo “Os Águias”, uma secção que começa a chamar à atenção pelas melhores razões – as vitórias conquistadas. Dina Coutinho é treinadora da secção de Trampolins do Clube alpiarcense e vem explicar ao nosso jornal como tudo funciona, desde o começo atribulado quase sem material, até à atualidade em que já começam a ganhar títulos a nível distrital, nacional e internacional.

Antes de mais, conte-nos o que faz e como se tornou treinadora?
Boa tarde. Sou professora do Ensino Básico, na Variante de Educação Física, mas sempre gostei muito de ginástica. Aliás, quando comecei no Águias foi pela Ginástica Desportiva, nem era Ginástica de Trampolins. Na altura em que terminei o curso – já o fui tirar mais velha – lamentava o facto de a ginástica ter terminado no Águias, até porque, embora o ciclismo tivesse sido a grande imagem de referência do Águias, a ginástica também foi um ponto forte. Lembro-me que, na época em que lá andei, chegámos a ganhar ao Sporting. Então, eu iniciei no Águias sem material nenhum, ou melhor, com o material que tinha de há 30 anos, portanto, meia dúzia de colchões velhos e o ginásio completamente acabado… Isto em 2007, a ideia era formar Ginástica Desportiva, a chamada “ginástica de solo”, que era mesmo a minha vertente, que foi o que eu pratiquei, solo e trave, depois acabaram com os aparelhos e ficámos só mesmo pelo solo. Hoje em dia é denominada Ginástica Artística, mas antigamente era Desportiva. Entretanto, tinha lá um minitrampolim, que utilizava para fazer ajudas, para fazer um flick atrás, para facilitar a progressão de elementos gímnicos. E eles [os miúdos] começaram a perguntar “porque é que não saltamos nisto?” e a dizer-me “Isto é tão giro!” …

E foi aí que passou da Ginástica Desportiva para os Trampolins?
Sim. Eu disse-lhes “Ok”, e começámos com saltos básicos no minitrampolim. Também tínhamos um duplo minitrampolim velho e muito antigo que foi todo atado com arames, e vamos lá então saltar duplo mini. Acabei por desistir da ideia da Ginástica Artística e direcionar-me para os Trampolins porque era isso que os miúdos realmente gostavam, daquela sensação de voo. Em 2010, participámos na nossa primeira competição, com os miúdos pioneiros da ginástica. Fomos federados, mas sem nunca ter experimentado um duplo minitrampolim oficial. Seis deles foram apurados para as Qualificativas e ficaram felicíssimos porque aquele duplo minitrampolim era muito maior do que o que tínhamos nos treinos, e muito melhor. Desses seis, passaram dois aos Nacionais. Comprou-se um duplo minitrampolim usado a Salvaterra de Magos, que foi um clube que nos ajudou bastante. De vez em quando, vamos lá treinar, para eles terem a noção de outra realidade.

E continuaram a crescer…
A partir daí foi sempre a crescer, comprouse um trampolim individual, conhecido por “cama elástica”… Tudo usado, porque nunca houve dinheiro para comprar novo.

Tiveram ajudas?
Os pais ajudaram muito. A vender rifas, a fazer bares, a participar no carnaval, que sempre participámos. Todo esse dinheiro reverte a favor da Secção de Ginástica. Os pais são sempre um grande apoio. A Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Alpiarça também contribuíram, fomos comprando mais aparelhos, mas tudo muito devagarinho. Claro que não temos aparelhos em condições da verdadeira competição, mas o que é certo é que eles conseguem sempre atingir voos fantásticos com o pouco que têm para treinar.

Tem muitos ginastas constantes?
Basicamente, uns saem outros entram, temos agora dois ex-ginastas que acabaram de se formar juízes, foram dos primeiros miúdos que entraram na ginástica, na época em que só havia meia dúzia de colchões. Têm agora 18 anos. Mas tem-se mantido assim.

Teve de tirar formação específica para trei nar trampolins?
Sim, fiz a especialização como Treinadora. Concluí nível 1 e nível 2, já comecei o nível 3, só me falta o estágio. O nível máximo é o 4, mas neste momento, em Portugal, só há formação até ao nível 3. Não existe o curso em si cá, há noutros países, mas cá não. Também fiz a Pós-Graduação em Treino Desportivo, que é sempre um contributo e uma mais-valia para o mundo da competição.

Como está a correr a época até agora?
Agora temos mais uns Distritais à porta. Já fizemos alguns, com bons resultados, contudo poderiam ter sido um pouco melhores, houve ali umas pequenas nuances. São momentos únicos e pontuais, são uns segundos de saltos, aqueles segundos são fulcrais, e se há uma falha é o trabalho de um ano inteiro que vai e fica para o ano seguinte.

Mas este ano também estão nos Nacionais?
Sim, já temos seis ginastas apurados para os Nacionais. Os que estão na verdadeira competição também não são muitos!

Quantos atletas tem no momento?
Eles são à volta de 45 a 50 miúdos. Portanto, o maior número de crianças é mesmo aquela idade de formação, que são os chamados Saltitões & Cangurus, neste momento são mais ou menos 25. Depois, quando chega a verdadeira competição, em que é preciso mais dedicação e empenho, são muito menos. Só temos quatro Infantis, raparigas, e uma começou agora, por isso também ainda não realiza muitos saltos. Aliás, a ginasta que ganhou o título de Campeã Distrital é uma ginasta que está comigo há 4 anos, portanto… Ela é muito boa ginasta, mas só percebemos depois, quando são mais velhos, e a dificuldade começa a aumentar. Tenho também duas Iniciadas, com ótimo desempenho, que estão comigo já há 6/7 anos, bem como um rapaz Iniciado, embora o campeonato não lhe tivesse corrido muito bem, porque ele ainda não gere muito bem a competição. No entanto, tem, de facto, muito potencial. A seguir, só tenho uma Juvenil em competição, mas tenho outras que entraram há menos tempo e que ainda não fazem os requisitos obrigatórios. Participam nos Troféus ou nos Torneios, em simultâneo com os Campeonatos Distritais. Os Distritais são para os ginastas que realizam os saltos obrigatórios, mas para isso é preciso bons anos de treino. Não é de repente que se consegue! Em simultâneo, decorre o Troféu AGS, Troféu da Associação de Ginástica de Santarém, realizado para todos os que não cumprem os requisitos obrigatórios, ou porque entraram há pouquíssimo tempo, ou porque têm alguma dificuldade; no entanto, participam nos Torneios e decorre tudo em simultâneo. Continuando, tenho uma Juvenil a nível Distrital, e outra que é só de Torneio, entrou apenas há um ano. Não tenho Juniores, tenho uma Sénior, Raquel Aguiar, que no ano passado fez uma rutura total de ligamentos o que, infelizmente, levou ao término da época. Acabou por não poder participar nos Nacionais, pois foi na véspera do Nacional de duplo mini que fez a lesão. Estava nos treinos e são coisas que acontecem, ficou com os Títulos Distritais. É a Campeã Distrital de Duplo Minitrampolim, Trampolim Individual e Trampolim Sincronizado de 2016, e em 2015 ficou em 3º lugar na Taça de Portugal.

Mas este ano voltou às competições?
Até ao ano passado, os ginastas tinham que ficar qualificados nos Distritais, depois havia as Qualificativas que lhes davam apuramento, ou não, para os Nacionais, depois tinham que se classificar nos 8 primeiros dos Nacionais para poderem passar à Taça de Portugal. Este ano, a Federação de Ginástica mudou o nome, são as Super Finais – e são só para ginastas de 1ª divisão, que é o caso desta ginasta. Falta só aquele passinho para a elite. Atualmente, os ginastas foram divididos em: base, primeira divisão, e há os elites. Só a partir do escalão de Júnior podem passar a elite, quando pontuam e já têm uma dificuldade superior, portanto é mais difícil e exigente. Todos os outros ginastas que estão comigo são base, alguns por opção, para poderem ter equipa. Por exemplo, o caso da Madalena Atela, poderia ser 1ª divisão, mas ficaria sem equipa. Uma equipa é constituída no mínimo por três ginastas e no máximo quatro. Os outros ginastas são base; para uma ser 1ª divisão ficaria sem equipa nas duas vertentes. Para além disso, a Diana, Infantil, fará sincronizado com a Madalena, que é Iniciada, ou seja, vou subir um escalão à Diana. Isto é tudo um jogo…

Uma estratégia…
Não deixa de ter estratégia. Embora seja um desporto individual, tem sempre estratégia. Esperemos que realmente consigam bons resultados. Entretanto, em abril, vamos à Copa Galiza, que já é um Campeonato Internacional, aí só conseguem ir mesmo os ginastas que cumprem os requisitos dos mundiais. Já estamos a falar de rodar muitos mortais por série, já não é tão tranquilo, o nível de exigência é muito superior.

Vai continuar sempre nos Trampolins ou pensa voltar à ginástica?
Enquanto conseguir, sim… deixamos de ter vida própria, mas enquanto conseguir, sim. O objetivo da ginástica ficou de parte porque, de facto, os miúdos gostam mesmo é de voar, daquela sensação de voo.

O que é mais difícil para si?
Para mim, no fundo, o que é mais difícil de gerir é ser só eu. Quando estou doente tenho de ir eu, quando estou cansada vou eu, portanto sou eu…

Nem tem treinador adjunto?
Não, ninguém. Tenho as outras ginastas mais velhas, que são poucas, mas vão ajudando e têm sido um grande apoio. Facilita o facto de serem divididos em 4 classes: os Saltitões, dos 3 aos 6 anos; há outra classe, dos 6 aos 9 anos, Cangurus e Infantis; há a Classe de Iniciação, mas já tem os escalões de Iniciados, estamos a falar dos 10 até aos 16, 17 anos, que são todos aqueles que iniciaram a modalidade recentemente e não cumprem os requisitos obrigatórios; há ainda a Classe de Competição, que são todos aqueles que realizam os saltos obrigatórios. Nessa, tenho uma Infantil, a Diana, que não faz sentido estar noutra classe, quando ela está mais avançada; tenho três Iniciados: duas raparigas e um rapaz; uma Juvenil e uma Sénior.

Qual acha ser a razão de ter menos rapazes do que raparigas?
Uma vez, um Clube perguntou-me se o nosso Clube era só de raparigas, nós só tínhamos raparigas [risos]. Nos escalões mais novos, dos 3 aos 6 anos, tenho mais rapazes do que raparigas. Depois, vão ficando mais velhos, vou ficando só com raparigas. Eles são mais porque tem a ver com a coordenação motora. Vão para a ginástica porque ajuda a desenvol ver a coordenação motora, a concentração, o equilíbrio, aprendem todos os elementos que são de solo e vão um pouco ao trampolim. Depois, a partir de uma determinada idade, é futebol. O futebol torna-se importante para os rapazes. Só tenho um rapaz na Classe de Competição.

E ele é bom ginasta?
Os rapazes que ficam, normalmente são bons. São aqueles que levam a modalidade mesmo a sério. Na Classe Representativa, ou seja, de Iniciação destes mais velhinhos, tenho 2 rapazes. Os mais velhos vão porque sentem curiosidade e talvez também porque precisam de uma boa nota na escola e ginástica não é fácil, se nunca tiveram antes! Mas lá está, a maioria são sempre raparigas porque [Trampolins] ainda é considerado um desporto feminino, embora não o seja. Na realidade, se tivesse dois ou três rapazes, eles “puxavam” uns pelos outros, motivavam-se, como os de Tomar ou os de Salvaterra, … todos eles têm rapazes, mas, aqui, é muito futebol.

Eles não conseguem propriamente competir com as raparigas porque não é a mesma forma, certo?
Sim, não é igual. Por norma, os rapazes têm mais força, saltam mais alto e executam saltos mais difíceis. As raparigas têm mais execução e menos dificuldade nas séries (saltos menos difíceis), para além de saltarem mais baixo.

E quando vão para a Faculdade conseguem continuar ou param?
Normalmente, param. Penso que uma das razões é o facto de os ginastas se moldarem ao treinador, habituam-se àquela forma de ser do treinador, de lidar com ele. Por vezes, chegam a passar mais horas nos treinos, nos Saraus, nos Torneios e nas Competições com o treinador do que em casa com os pais. Regressam tarde a casa, a horas de se deitarem, e é difícil conciliar o rigor, a disciplina e a exigência da modalidade com os estudos. Alguns, de facto, mudam de clube, vão treinar noutro, mas parece-me que a cumplicidade e a confiança entre ginasta/treinador deixam de existir. Para além de que a exigência da Faculdade é muito superior, creio que há desânimo e acaba por levá-los à desistência.

Porque nos desportos de equipa têm tantos treinadores que nunca ficam dependentes…
O desporto coletivo é diferente do desporto individual. O desporto individual é muito focado no treinador/atleta e atleta/treinador, neste caso ginasta. Acaba por haver ali uma cumplicidade maior. Enquanto que nos desportos coletivos é mais entre a equipa. Tanto é que, num desporto coletivo, é normal ter 20 ou 30 atletas a treinar em simultâneo. Num desporto individual não se conseguem ter 20 ou 30 atletas ao mesmo tempo, mais de 8 já é muito, já não é um treino tão individualizado. No desporto individual eles habituam-se, também, a trabalhar em equipa, mas de uma forma diferente. Os mais velhos ajudam os mais novos, ou até podem ter a mesma idade, mas se um está mais avançado num salto, num exercício ou num elemento gímnico do que o colega, vai ajudá-lo a fazer melhor.

Há a preocupação de, numa equipa, uns atletas compensarem as falhas dos outros?
Há, porque é o que contabiliza, nos Trampolins. Eles têm duas séries no trampolim, cada série tem dez saltos. Cada ginasta faz duas séries, em quatro ginastas conta a melhor nota de três. Pode contar a 1ª série de um, mas pode não contar a 2ª série desse mesmo ginasta, vai sempre buscar as três melhores notas da série 1 e da série 2, independentemente do ginasta que é. Quando são só três ginastas é uma chatice, porque não há possibilidade de falhas. Ou fazem ou fazem. Por isso, é muito melhor serem quatro porque uns acabam por compensar os outros.

E perspetivas? Previsões?
Previsões… acima de tudo é formar a maior quantidade de crianças/jovens, porque, afinal de contas, a parte principal é eles terem a noção do que é praticarem e criarem gosto pelo desporto. A partir daí, há sempre aqueles que dão continuidade, outros que não, mas fica sempre o gosto pela atividade física. Já sabemos que quando chega a idade de irem para a faculdade se vão embora, não é?! Mas até lá, é conseguir sempre os melhores resultados possíveis, dentro da medida do possível, com o equipamento que se tem.

Dina espera continuar muito mais tempo a treinar jovens Saltitões, Cangurus e Ginastas. Se assim continuar, ainda ouviremos falar dos fantásticos voos das Águias que saltam.