“O sonho de qualquer ciclista era participar na Volta a Portugal”

José Miranda do Céu e, a sua senhora, como carinhosamente lhe chama, Florinda do Céu, receberam o jornal O Alpiarcense em sua casa no dia em que o Sr. José fez 84 primaveras, a 23 de março. A sua idade pode contar para muita coisa, mas é um número que não entra na conta, aos quilómetros que faz todas as semanas na sua bicicleta. Na manhã chuvosa deste dia, o Sr. José já tinha feito à volta de 60 quilómetros, a pedalar, até à Parreira, Chouto, Ulme, Vale de Cavalos e finalmente de volta até ao seu café, que fica mesmo ao lado do Estádio Municipal de Alpiarça. “Hoje abalei faltavam aí 20 minutos para as oito da manhã.”

Quantos quilómetros fez hoje?
À volta de uns 60, segundo dizem eles. Ao domingo é muito mais…

Ao domingo costuma andar mais? Quanto?
Ao domingo ando quase… ando aí uns 80 ou coisa assim. [risos]

Então mas hoje não apanhou chuva?
Não apanhei não, tive sorte, passados uns 10 minutos depois de chegar a casa é que começou a chover.

E anda todos os dias de bicicleta?
Se ando todos os dias?! Não. Ando só duas vezes por semana e ao domingo. Mais ou menos duas vezes por semana e ao domingo. Com que idade começou a andar de bicicleta? Vamos lá. Em Alpiarça houve sempre uma grande tradição, muito grande mesmo, de ciclismo, não é?! E eu, bastante novo, queria muito ter uma bicicleta, só que não tinha possibilidades financeiras. Então, andava a trabalhar no oficio, de pintor, e fazia umas horas extra até conseguir arranjar dinheiro para comprar uma bicicleta. Mas tinha de ser nova. Então arranjei 900 escudos! Consegui! E comprei uma Hércules, ao José Canha, de roda 26. E foi aí que tive o meu sonho.

Que idade tinha nessa altura?
À volta de 15, 16 anos, quando comprei a minha bicicleta. Mas já sabia andar? Já pois! Não tinha era dinheiro para comprar a bicicleta. Tive sempre uma grande paixão pelo ciclismo, e quando era pelo tempo das podas, vinha aqui muitas vezes, porque havia uma grande tradição para os operários agrícolas. Vinha para o jardim vê-los, porque no fim do trabalho vinham sempre na “esgalha”. Uns de Almeirim, outros da estrada do campo e eu ali ao jardim gostava imenso de os ver. Depois, quando comprei a bicicleta comecei a fazer treinos naquela bicicleta pesada, e queria ser ciclista, mas para isso já tinha de arranjar dinheiro para comprar uma bicicleta de corridas. Então consegui, possivelmente em 47 ou 48, e comecei a correr. A minha primeira corrida foi em Lisboa. Antigamente, em qualquer localidade, vila ou aldeia havia uma festa e se não houvesse uma corrida de bicicletas a festa já não prestava. Mas proporcionou- se que a primeira vez que eu corri foi logo em Lisboa.

Nessa corrida já com a bicicleta nova?
Sim, e já a correr pelos Águias. Isto devia ser 1948 quando comecei, no campeonato regional. Hoje há uma grande quantidade de categorias, mas no meu tempo só havia três categorias: juniores, amadores seniores e independentes. De maneira que a primeira prova que eu faço era a chamada prova em linha e a segunda já foi a contrarrelógio. Na segunda, partimos do estádio velho de José Alvalade, até Alhandra… Agora é que eu sei que era para Alhandra, na altura estava eu pronto para partir do Estádio José Alvalade e a perguntar ao José da Costa, que era o nosso seccionista, “Ó Sr. Zé, mas onde é que eu vou?”. Eu não conhecia nada, nunca tinha ido a Lisboa, mal tinha saído daqui de Alpiarça. Pronto, parto de Alvalade, ainda ultrapassei dois ou três ciclistas que apanhei. Assim que entro de novo no estádio, para a ponta final, começa o José da Costa “Olha o Esturrado vai ser o nosso primeiro homem!”. Esturrado era a minha alcunha.

E foi o primeiro classificado?
Não, da corrida não fui. Fui o primeiro da minha equipa e fiz um bom lugar. Eu dava-me bem em contrarrelógio. Gostava pouco de rolar, a minha preferência era subir, mas em contrarrelógio fazia tudo. A partir daí quis sempre fazer contrarrelógio. Nunca ganhei nenhum, mas ficava sempre bem classificado. A malta arranjou-me um rival, o Chico Abrunheira, que era um rapaz da minha idade. Éramos rivais por sermos os dois mais jovens. Continuámos a correr, as características começam a vir ao de cima e, das minhas qualidades de ciclista, eu era melhor a subir. Mais ou menos em 1950 vamos para a 5ª Volta ao Algarve para amadores seniores. Naquele tempo havia muitas equipas: Benfica, Sporting, Arroios, Carcavelos, Cascais, Bombarral, “Águias” de Alpiarça, muitas equipas. O nosso presidente, que era o João Catarino Duarte, um dos maiores orgulhos que ele tinha era por sermos todos filhos de Alpiarça. Bem, mas voltando à Volta ao Algarve, lá fomos, todos ciclistas de Alpiarça, dois dias, e há um célebre contrarrelógio. Partimos atrás da equipa de Louletano, e o Joaquim Alcobia, que era o nosso técnico, diz “O primeiro a puxar é o António Luís”, depois possivelmente era eu, que era o segundo mais rápido, e a seguir os outros. Mas o que o António Luís ia a puxar para mim não dava, eu precisava de mais velocidade. E fui–me embora. Depois, antes de chegar à meta, a Portimão, começámos a avistar a equipa do Louletano, que ia à nossa frente, mas um bocado antes estava um pano que devia ser a caravana, possivelmente. O Aníbal arranca, julgando que era ali a meta, o José Abrunheira enfia a porca da frente na roda de trás do Aníbal, caem os dois e também o António Luís. De maneira que fico só eu, o meu rival e o Pangaia. Eu, assim que vejo o Chico Abrunheira, fico logo lixado porque ele era o meu rival e nunca tinha puxado pela equipa. Eu disse-lhe “Ó Chico puxa!” mas ele respondeu que tinha de parar. Eu disse-lhe “Se tu não puxas, eu também não puxo” e o Pangaia começou a puxar pela equipa, mas deixámos de ver a equipa de Louletano. Quando comecei a ver a meta arranco e dou tudo por tudo, mas, mesmo em cima da meta, o Chico Abrunheira vai-me bater. Fiquei-lhe cá com uma raiva…

Então, mas caíram os dois?
Não. Não devia ser assim, porque éramos uma equipa, mas ele ficou à minha frente. E se não fosse isso… Eu depois também deixei de puxar por causa do Chico Abrunheira. Podia ter ganho a Volta ao Algarve e acabei por ficar em 8º, atrás da equipa do Louletano. Fui o primeiro dos Águias. E foi assim. Há diversas histórias…

Que outras histórias?
Coisas mais importantes ainda… porque eu sentia muito a minha terra. Há o primeiro Lisboa- Alpiarça num ano e o segundo no ano seguinte, se não estou em erro, em 50 ou 51. Eu, como me sentia bem a subir, que era a minha especialidade, nos três dias antes do segundo Lisboa-Alpiarça vou treinar até a Azambuja. Ali em Santarém, onde era a chamada subida das padeiras. Eu a pensar que podia conseguir fugir aos outros, possivelmente atravessei a cidade de Santarém a toda a velocidade que podia. Na descida, na primeira curva, antes de chegar ao chafariz dou-a fora de mão, quando faço a última já a faço na mão mas apanho um carro, eu aí vou. Parti um dedo.

Você bateu num carro?
Sim, parti o farol do carro. Depois, por azar, vinha o polícia de viação e trânsito na carreira, que me diz que tenho de ir para o Hospital. E isto mete tribunal.

O Sr. José foi a tribunal?
É verdade. Tive que estar à volta de um mês e tal sem trabalhar e depois tive que arranjar três testemunhas e ir responder. Fui absolvido, mas se durante dois anos tivesse algum acidente então é que tinha problemas. Acontece o seguinte: eu andava a trabalhar em Almeirim e uns dias antes da Quarta-feira de Cinzas, recebo uma carta para, nesse dia, ir ao tribunal. De maneira que nessa quarta-feira em vez de ir para Almeirim trabalhar fui logo ao tribunal saber o que se passava. Chego ao tribunal e dizem-me “Ou paga 800 escudos de impostos de justiça ou vai dez dias preso”. Na altura tinha comprado uma bicicleta Celta novinha e tinha ficado sem dinheiro nenhum, tive de ir 10 dias preso.

Que idade é que tinha nessa altura?
Tinha 18 anos e fui 10 dias preso. Chamavam à cadeia uma escola porque era dentro da cidade e por isso víamos tudo o que se passava na rua. Eu, que nunca tinha ido preso na vida, e nunca fui depois disso, por causa do ciclismo fui preso 10 dias! [risos] Entretanto, o Jaime Catarino Duarte, que era muito benfiquista, foi ter comigo à cadeia para eu ir para o Benfica. Naquele tempo eu era jovem, solteiro, disse que ia. No fim dos 10 dias cumpridos, saí na disposição de ir para o Benfica e o Jaime Duarte foi falar com a direção dos “Águias”. Uns eram da opinião de eu ir e outros não. Fizeram uma assembleia extraordinária, em votos ficou decidido que eu ia e deram-me uma carta para eu entregar em Lisboa. Assim que eu saí da sede dos “Águias”, com a carta para ir para o Benfica, já não passei da loja dos Pinhões. Estavam lá uns cinco ou seis à porta, levaram-me lá para o escritório da loja e deram-me uma volta, que eu acabei por entregar logo ali a carta e já não fui a lado nenhum. Continuei nos “Águias”. Só vou para o Benfica mais tarde.

Foi correr para o Benfica?
Mais tarde estive no Benfica, no fim da volta a Portugal.

Correu na Volta a Portugal?
O sonho de qualquer ciclista era participar na Volta a Portugal. Em 55, se não estou em erro, quando fomos pelos “Águias”, éramos três de Alpiarça, três alentejanos e outro rapaz de Lisboa. Total de sete, mas de Alpiarça era só eu, o José Abrunheira e o Aníbal. Começou no Norte, no Estádio Lima, onde ganhámos o título de equipa da simpatia. Fizemos o Norte todo primeiro, porque antigamente a Volta a Portugal era mesmo a volta a Portugal. Nós corríamos o país de ponta a ponta. Fazíamos o Douro, Trás-Os-Montes, Beira Alta e Baixa, Alto e Baixo Alentejo, Algarve, Ribatejo, Estremadura… agora não, agora a Volta a Portugal é num cantozeco e mais nada. Naquele tempo, íamos do Norte ao Sul.

Eram quantos dias de prova?
Era à volta de 15 dias, 15 a 17 dias. Naquele tempo havia um controlo, conforme as etapas fossem mais ou menos longas, dentro de 2 quilómetros podíamos abastecer de água ou alimentação, a partir daqueles 2 quilómetros já não podia ser mais nada, se quiséssemos água ou comida tínhamos que ir à procura, a uma fonte, ou assim. Em contrapartida, hoje andam carros e motas com eles. Nós começámos pelo Norte, que é mais montanhoso do que o Sul, de maneira que eu ali comecei a sentir-me bem. Na etapa de Vila Real – Trás- Os-Montes – Braga tem umas subidas valentes. À medida que os dias iam passando, eu ia melhorando. Depois veio a célebre etapa Setúbal- Alpiarça. Eu cada vez me sentia melhor, com mais força e a lembrar-me que no outro dia vinha para a minha terra… de manhã fizemos Setúbal-Alpiarça e da parte da tarde Alpiarça-Lisboa. Mas o que me interessava era a chegada a Alpiarça, só que havia um problema para mim porque ali é praticamente só planície, que não era bom para as minhas características. Quando começo a chegar a Estremoz, começo a dizer para o Aníbal e para o José Abrunheira “Quem vai ganhar a etapa de Alpiarça sou eu” e eles disseram que eu era doido porque sabiam que eu não era sprinter, mas eu disse “Fujo logo à partida, ninguém faz caso de mim e quando me quiserem apanhar já não são capazes” porque eu sozinho já me sentia bem. Eu queria ganhar a etapa porque era uma honra para mim ser o primeiro na minha terra, mas a estrada não me ajudava. Antes da partida ouço as palavras do Ribeiro da Silva, que era o camisola amarela “Olhem que eu não quero que o homem de Alpiarça fuja”, mas eu não fiz caso dele. Assim que eles deram a partida eu aí venho, mas tenho azar de trazer comigo um ciclista do Porto chamado Alberto Cerqueira, que era o segundo classificado na geral. Em Pegões, começo a ver os meloeiros de Alpiarça ainda mais entusiasmo ganhei! Dou mais um esticão, trouxe dois ou três comigo, mas foi sol de pouca dura porque chegámos a Salvaterra e fomos apanhados. Pronto, sempre que havia algum que se esticava eu ia logo atrás dele, mas também não me conseguia isolar. Quem vinha com ela fisgada era o José Domingues, do Águias de Alpiarça, que arrancou aqui na subida, entra na pista sozinho, mas depois o Barbosa e o Raposo eram mais sprinters e apanharam-no. Ele faz 3º e eu faço 5º lugar. Depois, na parte da tarde, já foi para Lisboa e aí já ia descansado. Ainda chorei por ser a etapa da minha terra e não conseguir ganhar. No dia em que fomos para Tomar foi-me atribuído o prémio da combatividade. Eu acho que merecia mais na etapa para Alpiarça do que para Tomar, mas eles entenderam assim.

O prémio da combatividade?
O ciclista mais evidente na etapa, que mais lutasse, que mais entusiasmasse. Mas eu acho que dei mais para Alpiarça do que para Tomar, embora Tomar fosse do Ribatejo e também lá estava sempre muita gente de Alpiarça. Mais tarde há um contrarrelógio individual, que é Figueira da Foz-Sangalhos. Eu levava uma bicicleta só para mim, que era do Pernica, mas um carro tinha chocado contra o nosso, e a bicicleta estava um “cadito” empenada. Assim que parto da Figueira da Foz, tenho o azar de partir o quadro da bicicleta. Passados uns 5 quilómetros, o carro de apoio vem-me apanhar e eu disse-lhes “Vocês não me larguem”, mas ali ainda era alcatrão e continuei. Eles queriam que eu trocasse de bicicleta, mas eu não queria mudar, só queria que eles não me largassem. Enquanto foi alcatrão não tive problemas, mas quando passo a Coimbra e entro no empedrado, a corrente enrola-se na roda pedaleira, fiquei num vale, entre uma subida e uma descida e do carro de apoio, nada. Fiquei ali até que vi lá em cima um homem e um miúdo e comecei a gritar para o miúdo me dar a bicicleta e ele lá vem dar-ma, só que a bicicleta era pequena para mim. Lá fui… passado um bocado aparece o carro de apoio e eu lá tive de ir na bicicleta do Pernica. Isto de manhã, da parte da tarde já foi Sangalhos-Viseu, já fui normal com o meu quadro soldado. Nesse ano acabei por ficar em 17º lugar, o primeiro classificado dos Águias.

Em quantas voltas a Portugal participou?
Participei em duas. Na primeira fiquei em 17º e na segunda desisti. No tempo em que nós eramos amadores seniores, em 2 anos não houve volta a Portugal, não sei porquê…

Mas ainda não me contou quando é que foi para o Benfica?
Fui para o Benfica em 57 ou 56. Já era casado. Fui já a ganhar um ordenado de 800 escudos. Aqui em Alpiarça não ganhava nada, mas tinha o carinho e o apoio de todos. Não ganhava [dinheiro] mas ganhava muita moral, carinho, o apoio da população. No Benfica, chego lá e faz de conta que vou às escuras. Possivelmente, se tivesse ido quando era júnior habituava-me àquele ambiente.

Mas os adeptos do Benfica não apoiovam?
Pouco. Ninguém me ligava. Por exemplo, quando havia corridas e ficávamos numa pensão, uma vez um rapazito é que teve de me ir chamar porque eu estava à espera que alguém me fosse chamar. Em contrapartida, aqui estava habituado a ter essas coisas.

Eram mais próximos uns dos outros aqui?
Eles só faltava era andarem com a gente ao colo e lá no Benfica já não. E eu, numa altura em que nós passamos aqui em Santarém, gostava de ter passado na frente porque era daqui, mas não sei porquê, eles pouco apoio me deram. Depois desisti, estive lá só uns 4 meses porque, embora seja simpatizante do Benfica, não me sentia lá bem.

Então e depois disso?
Depois parei de andar durante muito tempo. A história de eu voltar novamente à bicicleta foi a minha neta mais nova Marta, que estava na Inglaterra e veio cá de férias. E eu realmente já andava muito gordo e sentia-me mal…

Parou mesmo de andar de bicicleta?
Andava aqui só na terra, pouco, e depois parei mesmo. A minha neta Marta esteve na Inglaterra quatro anos. Quando veio cá disse-me “Oh Vô, eu precisava de andar de bicicleta” e eu disse que sim. Começámos a dar por aqui umas voltinhas até à zona industrial, por aí fora. Assim começámos, mas um dia disse-lhe “Amanhã vamos dar uma volta maior”. Comecei a ir com ela e comecei a sentir-me bem. Ela depois foi novamente para a Inglaterra, e eu a partir daí não voltei a deixar de andar de bicicleta. Tinha uma bicicleta velha, não tinha condições e, por isso, disse à Florinda para ir ao José Fialho para me arranjar a bicicleta. Entretanto, estava lá o meu primo Júlio Calado que ia vender a bicicleta do filho e eu comprei-a. E sou sincero, quando começo a andar de bicicleta, porque estou 2 ou 3 meses parado no inverno, começo por aqui, Casalinho e tal, e depois, consoante a constituição, vou aumentando os quilómetros. Não me interessa fazer muitos quilómetros e chegar aqui a abanar. Interessa-me é chegar bem. Mas este ano, não sei porquê, tenho feito muito mais quilómetros do que nos outros anos. Faço quase sempre mais ou menos o mesmo caminho, só ao domingo é que mudo. Este ano ainda ando por aqui, Ulme, Parreira, Marianos, Paço dos Negros… eu gosto mesmo de fazer aquela subida de Ulme para o Chouto. Já fui a Coruche, como há menos trânsito, mas vou lá mesmo abaixo ao Sorraia para depois poder fazer aquela subida grande.

E é mesmo só como passeio? Não faz prova nenhuma?
Não, não faço. Eu prefiro andar sozinho.

E tem um objetivo fixo?
O meu objetivo, por exemplo, se eu fizer à volta de 80 ou 90 quilómetros é o máximo que tenho feito. Posso fazer mais, mas eu não quero. Interessa-me chegar aqui, mas se for preciso chegar à Chamusca ou à Golegã, chego. Mas chegar bem, não é chegar todo empenado. Às vezes calha vê-los passar aqui, todos empenados em cima da bicicleta. Porque não podemos ir fazer quilómetros sem estar preparados para eles. Também não convém fazer muitos quilómetros porque se tivesse de ir competir, já ia cheio de bicicleta. Interessa a quem corra de bicicleta, ir à corrida ao domingo com vontade e com fome de bicicleta. [risos] Então quer dizer que não pensa parar? Não, e até lhe digo que não vou parar e até tenho ideia de aumentar. Aumentar a distância ou o tempo? Possivelmente sou capaz de aumentar a distância. Sou capaz de, daqui por mais um mês ou coisa assim, começar a aumentar a distância. Este ano, não sei porquê, é o ano em que estou a sentir-me melhor e já estou a fazer mais quilómetros do que nos outros anos. E o que é que o médico diz? As análises estão a 100% e o coração também está porreiro. O médico disse para continuar a andar, mas com calma. E o Sr. José continua a dar os seus “passeios” que para os demais soam muito a maratonas. Chega sempre bem, nunca a abanar, e deixa- -nos a promessa de voltar a Coruche assim que o tempo esteja bom e o permita. Até lá, é vê-lo pela manhã a fazer os habituais 60 quilómetros pela nossa Alpiarça e pelas terras que nos rodeiam, o mais feliz que pode estar, se for a “puxar” numa subida especialmente difícil.