“O Sonho da Liberdade” passa por Alpiarça

O escritor Victor Gomes veio à Biblioteca de Alpiarça apresentar o seu segundo livro intitulado “Poeira: O Sonho da Liberdade”. O autor falou do seu caricato percurso académico e partilhou histórias de vida com o público presente revelando ainda ao nosso jornal alguns detalhes sobre o seu próximo livro.

Sei que é algo que o marcou e que, aliás, é quase o “propulsor” da história deste livro. Fale-nos um pouco do seu percurso académico.
A minha história académica resume-se a uma coisa muito simples: universidade da vida. Eu vim estudar aos 10 anos para Santarém, estive dois anos no liceu, chumbei e aquilo que o meu pai tinha para me dar era campo. “Chumbaste?! Então vais para o campo!”

Estudou até aos 10 anos em Almoster, certo?
Exatamente. Estudei até aos 10 anos em Almoster, fiz o exame de admissão ao liceu e entrei. Era um grande esforço e posso dizer-lhe que, da minha aldeia, fui o primeiro a vir estudar para o liceu.

Então a sua família depositava em si uma certa esperança…
Apostaram em mim, embora não podendo apostar muito porque pouco havia para o fazer, mas fizeram esse esforço tremendo, só que esse esforço foi inglório porque um miúdo de 10 anos precisa de alguém que lhe diga “olha, já fizeste os trabalhos?” ou “já estudaste”. A dona do quarto não queria que eu a chateasse, e então o que acontecia era que, quando chegava a casa, mandava a mala para debaixo da cama, no outro dia pegava nela e ia para o liceu.
Contava com a minha capacidade de decorar, mas isso não chegava, era preciso mais.

Longe da família, quem é que lhe preparava as refeições?
Isso era lá no sítio onde eu estava hospedado. Fazia-me o almoço, o jantar, o lanche e eu ia para o liceu.

E tinha amigos por lá?
Os amigos eram alguns que eu conheci aqui [Santarém] mas eram bem poucos. O meu grande desporto enquanto estive a estudar no liceu era ir conhecer as ruas de Santarém e decorar os nomes. Aos 10 anos conhecia os nomes das ruas todas de Santarém. Ia à biblioteca buscar um livrinho para ler, praticamente todos os dias. Adorava os livros de histórias, devorava aquilo. A minha vida era aquela. A dona da casa onde estava hospedado não deixava ver televisão porque gastava muita eletricidade, tinha um naperonzinho por cima, só para enfeitar, e então às oito e meia íamos dormir.
O percurso académico foi este, a seguir fui trabalhar para a universidade da vida: fui para o comércio aos 12 anos, que é quando começa este livro. Neste sítio, onde eu entrei aos 12 anos, estive até aos 28.

Trabalhava em que área do comércio?
Trabalhei na espingardaria Gerardo, em Santarém, que ainda hoje lá está. Estive lá aqueles anos todos, passei pelos vários patamares e aos 20 anos já era o “maior” lá da casa.
Mas quando tinha 18 anos foi quando se deu o 25 de Abril e é claro que fui apanhado por aquela enxurrada revolucionária e andei nos sindicatos, partidos políticos, fui um dos fundadores da Cooperativa Habitação em Santarém. Posso dizer que participei em tudo o que estava a acontecer naquele momento.

E o seu envolvimento em todas essas atividades, que acabam por ser políticas, foi influenciado pelo sentimento de abandono aos 10 anos?
Eu hoje digo que sim. Mas há ali uma coisa que correu bem comigo, se calhar com outro não correria da mesma maneira: eu não atirei a culpa para os pais ou para a família, atirei a culpa para o sistema. Isto aconteceu assim porque eles não podiam fazer de outra maneira.

Já sei que “Poeira” diz respeito a uma personagem, mas houve algum motivo especial na escolha do título do livro?
O Poeira é uma personagem e “O sonho da liberdade” por ele ir desembocar no 25 de Abril.

Que tema trata, então, o seu primeiro livro (onde aparece também esta personagem)?
O primeiro, que se chama “Poeira: Histórias de Vida”, vai desde os meus seis até aos meus 12 anos e retrata pequenas histórias minhas, misturadas com outras que são ficção. Este último, começa daí até ao 25 de Abril.

Alpiarça é uma referência espacial no seu livro. Tem recordações da nossa vila enquanto adolescente?
Não. No primeiro livro, o tal Poeira andava ali na zona do Cartaxo e Manique do Intendente; no segundo livro quis tirá-lo de lá e achei bem trazê-lo para aqui, depois de ter investigado sobre as lutas operárias e me ter apercebido que tinha havido uma grande greve naquele Novembro de 73, que veio mesmo a calhar porque eu queria acabar o livro em 74.

Acha que é muito diferente o antes com o que se passa nos dias de hoje?
Claro que sim.

Não acha que as crianças acabam por ser à mesma abandonadas porque os pais precisam de trabalhar e têm, muitas vezes, de as deixar ao cuidado de estranhos?
É verdade, tem outra nuance. Eu fui criado aos 5 anos a guardar carneiros, levantava-me cedinho e diziam-me “vais guardar carneiros em tal sítio e só voltas quando o sol se puser”, e era assim que eu fazia antes de ir para a escola. Quando fui para a escola, a minha prenda foi venderem-se os carneiros para comprar umas botas. Portanto, são duas formas de ver as coisas. É claro que o ideal seria a mãe poder estar com os filhos. No meu tempo ainda havia a avó que ficava com o neto, agora já nem isso há. Com os meus filhos nunca tive uma avó para ficar com os netos. São outros tempos, mas antigamente era muito mais violento. Não quer dizer que não haja, hoje, nichos de miséria.

Hoje em dia parece haver uma tendência para subvalorizar a liberdade de expressão. Que comparação tece entre o antes e depois da Revolução dos Cravos?
Não há comparação possível. Hoje sinto-me preocupado. Como me preocupava antes do 25 de Abril com a questão “quando é que a gente dá a volta a isto”, neste momento preocupa-me o “quando é que eles vão dar a volta a isto”. Quando começamos a ver um Trump a ganhar nos Estados Unidos, e a Bulgária com um neofascista no poder, se calhar é altura de ficarmos preocupados. Só mesmo quem viveu – e eu não vivi muito – antes do 25 de Abril sabe dar o valor. Agora, se se pode comparar? Não, não pode. Só o facto de nós dizermos que podemos falar sobre isso descontextualiza-nos radicalmente daquela época.

Já há planos para o próximo livro?
No início do ano eu comecei a escrever outra coisa, o Poeira agora vai descansar e está praticamente pronto mas desisti de o publicar tão depressa. Será um romance que trata de um assalto a uma carrinha de valores, numa verdadeira história de faca e alguidar, como se costuma dizer.