Namoros à Antiga em Alpiarça

Numa época em que vivemos dominados e dependentes das novas tecnologias e da internet, em que estamos sempre à distância de um clique para falar com outra pessoa, o jornal O Alpiarcense foi para a rua saber como era namorar antigamente, quando quase não havia eletricidade, quanto mais redes sociais, e perceber o que quer dizer a expressão “namorar ao postigo”, que nos foi explicada pelas pessoas que conheceram de perto essa interação social.

“Era sempre o muro da vergonha, ao meio. O meu pai teve de serrar uma porta para fazer um postigosito para eu poder namorar. Porque eu não tinha casas à borda da estrada, era um anexo, e então o meu pai não tinha janela nenhuma para eu namorar, chamou lá o carpinteiro e mandou serrar a porta da cozinha, teve de pôr uns batentes por causa do frio. Para dar um beijo, a mãe não podia estar lá e tinha de ser um relâmpago. Eu andei nas mondas do arroz nas maltesarias, em Vila Franca, e os nossos namorados iam lá ter ao fim de semana. Só namorávamos ao fim de semana.”
Rosa Mira “Ratoeira”

“Namorava-se à janela, eu era ao postigo porque não tinha janela, e era eu do lado de dentro e o namorado do lado de fora, a porta estava a interromper o trânsito. Na minha época namorava-se à quarta feira e ao domingo. E ao sábado à noite. A minha mãe estava sentada na cozinha em frente à porta para me ver. Eu ia um bocadinho mais cedo, antes de o namorado vir, e arrastava o calço para cerrar a porta para a minha mãe não me ver, mas quando ela percebia que já não me via, ia ao quarto, fingir que estava a fazer alguma coisa e abria a porta outra vez. Mas para que era aquilo? O rapaz estava do lado de fora, eu do lado de dentro e o postigo era tão alto. Ele, para me dar um beijo, eu tinha de me levantar da cadeira para ir ao pé dele.”
Maria Celestina

“Eu nunca namorei à janela, foi sempre à porta. Nós sentadas, e os namorados debruçados à janela a namorar, mas muito longe uns dos outros. Não havia ordem de estar ao pé uns dos outros. Às vezes, quando era para roubar um beijito, nós levantávamo-nos e íamos ao pé deles. Outras vezes estava o pai a guardar-nos. Também namorei dentro de casa mas éramos três a namorar: era eu sentada à entrada da porta mais o meu namorado, e era o meu pai que se sentava numa arca. Todo o tempo que estávamos a namorar, estava lá ao pé de nós. Quando íamos aos bailes as mães iam connosco, nós íamos com os namorados e a mãe ia atrás de nós ou à frente.”
Fernanda Cortimpau

“A gente namorava à porta, antes não havia ordem de lá entrar. Quando os víamos [os namorados] falávamos com eles, namorávamos pelo caminho para casa e era só naqueles dias que tínhamos para ir a casa, só à quarta feira, ao sábado e ao domingo. Havia outras classes que era à quinta-feira – as meninas da costura, que não andavam no campo – mas nós era à quarta. A minha mãe não estava na mesma divisão, mas de vez em quando ela fazia a parte que ia à procura das agulhas para nos ver, e o meu namorado dizia «Ó Sra. Maria, você quer que eu vá ali ao Mário Cox às agulhas? Anda aí tão atrapalhada…»”
Maria Emília Ferreira

“Na minha terra, o Seixo, que pertence à Sertã, os rapazes começavam a procurar as cachopas para namorar, se interessasse interessava, mas eles nunca iam a casa, namoravam-se pela rua, onde se encontrassem. Só começavam a ir a casa mais tarde, mas ficavam na rua; à janela, só até umas certas horas porque as nossas mães começavam a mandar vir. Se quiséssemos ir ao baile não tínhamos nada a ver com o rapaz, o rapaz se fosse a um baile não tinha nada a ver com a cachopa. Se calhasse irem juntos iam, se não calhasse não iam, cada qual andava para si, não havia tanta complicação como agora. Quando falavam com os pais para terem ordem para namorar, já podiam ir lá a casa, já eram convidados para as matanças dos porcos, mas primeiro que isso acontecesse ainda demorava muito tempo. Pronto, no fim, se entendessem, casavam.”
Maria Pereira

“Namorávamos à janela, ao pé dos nossos pais e das nossas mães. Eu era do lado do quintal porque as minhas janelas do lado da rua eram muito altas, não dava para namorar. Íamos ao baile, com as mães e com o namorado, e dançávamos com ele. Quando se apagava a luz, as nossas mães eram sempre a riscar o fósforo. Não havia luz nas estradas nem em lado nenhum, por isso íamos sempre às escuras.”
Fernanda Pais

“Eu namorei muito pouco, não era à janela, era sentada numa arca. Já namorei dentro de casa, sentados numa arca. Não estava lá ninguém connosco, o meu pai andava nas maltesarias. Se ele não andasse nas maltesarias nem tinha ordem de namorar nunca, esquisito como ele era.”
Maria Júlia

Mesmo as gerações seguintes souberam o que era namorar ao postigo, se não o experimentaram na primeira pessoa, alguém lhes passou esse conhecimento…
“Em casa, era no fim de jantar. A rapariga estava do lado de dentro do postigo, a porta abria ao meio, tinha uma janela que se chamava o postigo. A menina estava do lado de dentro sentada, normalmente a costurar, a bordar ou a fazer renda, e o noivo estava do lado de fora, debruçado. Conheço uma [senhora] aqui na rua que estava sempre a fazer renda e o namorado dizia que não queria que ela estivesse a fazer renda. Um dia, estava ela, mais uma vez, a fazer renda, a mãe chamou-a e ela foi lá dentro, quando chegou tinha a linha toda no chão, ele desmanchou tudo. Nunca mais fez renda quando estava a namorar.”
Ana Paula Avelino

“Namorar era acompanhar a namorada a casa com a bicicleta à mão e depois em casa, era à janela. Uma vez, cheguei lá, ela estava a fazer pé relé… Em vez de estar a namorar, estava a fazer renda. Eu puxei aquilo e acabou-se logo o pé relé. Eu não precisava de aprender a fazer renda, já tinha o enxoval feito. Outra vez, ela estava na seara, em Vila Franca de Xira, e eu fui daqui, para ir namorar, de bicicleta. Estive todo o dia a pedir um beijo, ela nunca me quis dar. Ao fim do dia, quando me foi dar um beijo apareceu logo a tia dela à porta. Lá venho eu de bicicleta, todo o caminho, quando cheguei a Muge já não conseguia vir sentado.”
José Joaquim Esteireiro

“A minha tia namorava assim, um bocadinho às escondidas, e eu era pequena ainda e ia lá para casa. O namorado dela chegava lá, encostava a bicicleta à parede na rua, e ela vinha para a rua para ao pé dele, isto durante o dia. Então ele dizia-me «Ó Milhita toma lá dinheiro, vai lá aos rebuçados.» e eu ia para eles ficarem a namorar sozinhos aquele bocadinho.”
Emília Piscalho

No final de contas, namorar é namorar, tenha mais ou menos permissões, seja nos dias de hoje ou há seis décadas atrás.

O Namoro no Alentejo/ Monte/Casal Rústico
Século XX
Sousa Lopes
Materiais: Óleo sobre tela
Dimensões: 81 x 71 cm
Nº INV. 85.321
Imagem cedida pela Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça.