Governar com “apoio difuso”, por Armindo Batata

Quem olha atentamente para a diferença nas dinâmicas de crescimento e de desenvolvimento, de Alpiarça e dos restantes Concelhos da região, fica com a sensação de que vivemos num enclave. Sim, um enclave, cada vez mais isolado, de fronteiras cada vez mais vincadas. Um enclave meramente partidário, que disso vive e para isso vive. As
suas bandeiras são o passado e uma utopia de futuro, embalada em cada vez mais profundo adormecimento e atraso. Parece ser a realidade e, de nada serve enterrarmos a cabeça na areia e assobiarmos para o lado.
Mas a preocupação e a tristeza, é que esse atraso e esse adormecimento, é negado e, do progresso e do desenvolvimento que ninguém vê, se faz bandeira.
A preocupação e a tristeza, a que acresce o espanto, é que para a maioria da população, ou pelo menos, para maioria dos eleitores, tudo está bem.
Mas então que se passa? Masoquismo dos eleitores? Claro que não.
A leitura de “Qualidade da Democracia em Portugal” – Conceição Pequito Teixeira ed. FFMS/2018 – talvez nos ajude a encontrar uma explicação. Na obra são desenvolvidos dois conceitos no relacionamento dos eleitores com os políticos, qualquer deles democrático e legítimo. Repito, democrático e legítimo.
Um dos conceitos, é o de “apoio difuso”. Trata-se de um apoio incondicional da maioria da população aos dirigentes políticos, no nosso caso, aos dirigentes da Autarquia. É uma adesão de forma latente. É um apreço, não ao desempenho, mas sim ás orientações ideológicas/doutrinárias.
O carisma do líder sobrepõe-se (incondicionalmente) à sua actuação política.
A continuidade do apoio ao líder, é garantida por aparições públicas deste, mas resguardadas, em que é proferido um inflamado discurso, de grandiosas promessas, alicerçadas num passado que em parte alguma deu frutos. E se nunca passar de promessas, é porque uma qualquer oposição o não permitirá. Esta é a retórica, para que as
promessas não passem precisamente disso: promessas. A continuidade do apoio fica então garantida, não pelo que (nada) se faz, mas pelo que uma qualquer oposição de má catadura não deixa fazer. Se não for a oposição é o Governo Central, uma entidade que tem por fim último, impedir que Alpiarça se desenvolva. Note-se que nunca é
utilizada a designação “Governo da República, mas antes o Governo Central, o inimigo de sempre. E ponto final no discurso. Seguem-se uns festejos e umas animações e nada mais se faz. Não convém mesmo fazer coisa alguma, não vá correr mal levando a que alguns apoiantes incondicionais ponderem o “incondicional” do seu apoio.
Em oposição a este conceito de apoio incondicional, é apresentado, na citada publicação o “apoio específico”, definido como sendo o apoio condicionado ao modo como as instituições e os actores políticos funcionam e actuam.
Nestas situações, de pouco valem as animações, os discursos e os festejos, porque há um olhar crítico sobre o funcionamento das instituições e dos actores concelhios.
Por isto os governantes de algumas outras Autarquias, consideram de grande importância, quanto mais não seja, para garantir reeleições, dar a conhecer as estratégias de desenvolvimento e de actuação. Sabem que o apoio não é incondicional, e, como tal, a reeleição não está garantida. Há que manter acesa nos eleitores a sua condição de
apoiantes, cumprindo promessas e satisfazendo os desejos de crescimento e de futuro da comunidade.
Voltemos a observar o que se passa no enclave Alpiarça. Não há, não se vê, plano estratégico algum. Não se vê nenhuma linha condutora nas muitas actividades lúdicas que vão surgindo nos mais variados campos: desportivos, culturais, infantis, de diversão, etc etc etc. Não há espaço de discussão sobre o nosso futuro. Nada do que é sugerido
pela oposição tem validade. Muitas das vezes, as sugestões não são contestadas, são mesmo apoiadas, mas deve haver uma qualquer disposição ideológica ou partidária que impede que se concretizem.

Talvez um dilema tipo Califa Omar: Se as sugestões também constam do nosso programa, um dia, oportunamente, as iremos por em prática. Se não constam, não prestam para nada, são lixo.

Assim se vive em Alpiarça.
Armindo Batata
Deputado Municipal eleito por Muda Alpiarça (PSD-CDS-MPT)