Crónicas do Outeiro: A nossa doçaria – um recurso e um património

Este é um tempo em que se pode e deve aproveitar e valorizar os nossos recursos próprios, estando as pessoas em primeiro lugar. As pessoas estão em primeiro lugar mas, para isso, é preciso cuidar da economia local, do meio ambiente e da cultura, respeitando a diversidade dos que pensam e agem de uma forma diferente, original e empenhada, pelo bem da comunidade alpiarcense. A nossa doçaria precisa de ser cuidada e valorizada. Os primeiros passos, que agora se dão, referem-se ao levantamento das receitas familiares, à confeção dos doces – tantos deles já esquecidos nas suas formas de fazer e apresentar – à apresentação e divulgação pública deste património, à criação de uma forma própria e original de os publicitar e ao envolvimento harmonioso de pessoas e entidades públicas e privadas, sem exceções nem preconceitos. Falamos por isso nas maneiras de valorizar o que tão bem fazemos e que nos foi transmitido por gerações passadas. As iniciativas que se vão tomando em Alpiarça indicam que se está no bom caminho. A organização de uma mostra anual de produtos de doçaria vai ganhando forma e constitui um embrião do que de muito se pode vir a fazer no futuro. O envolvimento de todos os que se interessam pela valorização dos nossos recursos é fundamental, não devendo excluir-se ninguém que tenha genuíno interesse pelo crescimento da nossa terra, lançando as bases para a criação de uma atividade organizada – na área da doçaria – que pode criar riqueza e atrair cada vez mais visitantes a Alpiarça. Há excecionais doceiras, há um esforço para mostrar a doçaria tradicional na Alpiagra e na Arte Natal, há uma tradição secular na confeção de doces, como é raro encontrar-se nas terras do nosso País e por isso temos tudo o que é preciso para fazer florescer esta atividade. Está igualmente em curso uma atividade organizada para fazer o levantamento do património da doçaria tradicional, pela qual anualmente se estão a publicar Cadernos Culturais dedicados ao tema, e aonde se relacionam as receitas com a alma das doceiras e das famílias que tão bem têm sabido preservar a tradição nos seus livros de receitas. Saibamos apoiar essa iniciativa. Neste ano de 2016 vamos publicar um Caderno de tributo a uma doceira tradicional, a Dª Idalina Fidalgo e Silva, que nos legou um livro com 61 receitas de doces. Esta senhora foi educada num colégio inglês e tinha uma maneira muito organizada de estar na vida, de tal forma que criou uma escola de aprendizas, onde as jovens de Alpiarça eram ensinadas na arte dos bordados e na boa educação. O livro, que irá ser publicado em Dezembro de 2016, revela a relação que existe entre a alma desta senhora e as 61 receitas de doces que nos legou no seu livro manuscrito.

Este livro familiar está na posse das irmãs Matos Alves, conhecidas popularmente por “Ameixas” e é um legado precioso para as gerações futuras porque regista as receitas da pessoa que o iniciou e que o legou às irmãs, que lhe deram continuidade. É, por isso, considerado como um testemunho da forma como a comunidade alpiarcense se organizava no decurso de todo o século XX. Deve ser, por estas e outras razões, considerado como um património de interesse municipal. Deve ser preservado e guardado para as gerações futuras, como testemunho de um modo de vida que nos influenciou a todos e a todas na nossa terra. Saibamos honrar as tradições e as memó- rias dos que nos antecederam, e ser dignos do seu legado patrimonial e cultural.

João Monteiro Serrano