Alpiarcenses pelo mundo: A vez de Beto Duarte

Teve uma infância conturbada devido a problemas de alcoolismo no seio da família, mas confessa que foi feliz durante grande parte dessa época e recorda com carinho a idade dos 10 anos, quando nasceu o seu irmão Pedro. Alberto Duarte emigrou pela primeira vez aos 28 anos, mas, agora, com 40 anos, confessa-se um emigrante “fiel às origens” que não tem dúvidas quanto ao seu regresso a Portugal.

Como recorda a sua infância em Alpiarça?
Cresci saudável, com as brincadeiras de rua como se faziam antigamente: carrinhos de rolamentos, jogar à bola até tarde/noite porque nesses tempos nem sequer existiam telemóveis, playstation’s ou até mesmo porque um telefone era só para quem tinha posses, e a nossa comunicação era juntarmo-nos todos e sermos felizes com as nossas brincadeiras de rua.

Há algum episódio mais marcante da sua adolescência, mau ou bom, que o Beto queira partilhar?
Mau: foi em fevereiro de 1993, quando tive um acidente de carro, no casamento de um amigo meu. Bom, tenho dois: o nascimento do meu melhor amigo, o meu irmão Pedro, e em segundo, quando comprei a minha primeira moto.

O acidente foi grave?
Digamos que sim. Fiquei sem o baço, levei quatro pontos no rim esquerdo, algumas tromboflebites, um dedo partido e alguns hematomas. Fiquei internado durante duas semanas.

Deve ter sido complicado…
Foi, porque fiquei um pouco limitado em termos físicos (não podendo correr, por exemplo) para o resto da minha vida; quer em termos de alimentação mais restrita, quer em medicação que tenho de tomar de tempos a tempos, para aumentar o metabolismo e prevenir infecções porque, como se sabe, o baço é um órgão auxiliar do fígado e daí certas limitações.

Quando emigrou pela primeira vez e para onde?
Emigrei no dia 13 de setembro de 2004 para a periferia de Londres.

O que o motivou a fazê-lo?
Pergunta um pouco complicada, mas ok. Meses antes de emigrar, eu namorava uma moça de Santarém que tinha cerca de menos 10 anos que eu, mas a coisa não correu muito bem entre nós, daí a nossa separação, e a dada altura houve uns indivíduos que me ameaçaram: ou eu me afastava dela ou… acabavam comigo. Nesse mesmo verão (agosto) fui passar férias ao Algarve e conheci uma moça portuguesa que vivia em Londres e, no meio da conversa, surgiu a oportunidade de vir para Londres. Nesse momento não pensei duas vezes e aproveitei: foi essa minha amiga que orientou a minha vinda e cá estou.

Muitos emigrantes portugueses retratam Londres como uma cidade taciturna, de tempo instável. Como foi a sua adaptação ao país?
A adaptação até não foi muito complicada mas… verdade seja dita, neste país não se pode contar com estações do ano [risos] mas temos que nos adaptar. Digamos que, de início, se nota um pouco mas com o tempo tudo se torna mais simples.

Como descreve Londres, as suas paisagens, gentes e gastronomia? Em termos de paisagem geral?
Tudo muito velho, casas por todo o lado, mas tem parques muito bonitos onde podemos passear com a família e amigos. Gentes… ora bem, muito multiculturalismo junto; ingleses, nem vê-los. Gastronomia… só mesmo a portuguesa porque, como é sabido, a gastronomia inglesa não presta, a não ser o english breakfast. Quando quero comer boa comida fora vou com a família a um restaurante português ou turco.

A crescente desvalorização da libra esterlina, consequência do brexit, em relação ao euro deixa-o apreensivo quanto ao seu futuro na Inglaterra?
Não. Tenho um emprego estável já há seis anos, e o brexit passa-me ao lado.

Não sentiu nada de diferente no comportamento das pessoas, quer ingleses quer emigrantes, com a aprovação do brexit?
Sim, sentiu-se, claro. Muito bullying, racismo, não comigo mas sei de casos, de relatos que me fazem, do que se passa no autocarro, no metro e mesmo nos postos de trabalho. O povo inglês é um povo muito racista, daí adveio a palavra bullying.

Que relatos eram esses? Pode especificar?
Do género: “vai para o teu país que não pertences aqui” ou então “vens para aqui roubar os nossos trabalhos, só querem é benefícios” e chegavam mesmo a ofender. Isto pelo que me contam, porque a mim, no meu trabalho ou mesmo na rua, nunca me abordaram ou trataram mal. Nem mesmo tendo a bandeira de Portugal na antena do meu carro me trataram de forma diferente.

Há algum hábito típico britânico que o Beto tenha adquirido?
À exceção casa-trabalho, trabalho-casa e conduzir do outro lado da estrada, sou fiel às minhas origens.

Foi difícil a habituação ao “outro lado da estrada”?
Sim, foi. Principalmente nos primeiros dois ou três meses de aqui estar mas a adaptação foi muito facilitada porque a condução neste país é muito civilizada comparada com a de Portugal, respeitam muito mais.

O que aconselharia a alguém que quer viver e trabalhar em Inglaterra, particularmente Londres? Conselhos?
A vida de emigrante não é fácil, como muita gente pinta. Quem quiser trabalhar em Londres tem de se preparar para trazer dinheiro suficiente para se auto sustentar durante algum tempo (um mês) até arranjar algo e a vida em Londres não é nada barata, principalmente os alugueres de quarto. E não esquecer uma coisa importante: o povo português é muito invejoso no geral, e têm que ter muito cuidado com quem lidam, o que não é fácil numa cidade com cerca de 10 milhões de habitantes.

Pensa regressar definitivamente a Alpiarça ou encontrou em Inglaterra um novo lar?
De momento, tenciono ficar cá e regressar quando os meus dois filhos forem para a universidade mas a minha esposa não quer, ela é portuguesa mas não quer voltar – vai ser o meu divórcio [risos]. Ela diz que decidiu viver aqui e aqui vai ficar até morrer, mas eu não acredito.

Diz que gosta deste país mas, tal como eu disse anteriormente, vai ser o meu divórcio na idade da reforma. Que lhe deixa saudades na sua terra natal?
Tudo. Família, amigos, comida, clima, tempo para tudo, enfim, é difícil de descrever, Alpiarça é o meu berço. Não tenho como descrever a minha terra.

Quer deixar uma mensagem aos seus amigos e familiares?
Sim. Apenas isto: esperem por mim no próximo verão e sejam felizes da melhor forma possível!